CIER – Conselho de Igrejas para Estudo e reflexão

Semana de Oração pela Unidade dos cristãos - 2009

 

SEMINÁRIO: “Unidos na tua mão” Ez 37,17

 

“Em 2009, os cristãos do mundo inteiro rezarão pela unidade “para que estejam unidos em tua mão”(cf Ez 37,17). Ezequiel – cujo nome significa - “Deus o faz forte” – foi chamado para restituir a esperança a seu povo, numa situação política e religiosa desesperada que perdurou depois da queda e ocupação de Israel, com o exílio de grande parte de seu povo”. (Texto-base SOUC).

 

            O CIER realizou nos dias 23 e 24 de março de 2009, no Centro de Formação Católica – Lages, o Seminário sobre o tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Com a participação de 35 pessoas, representantes da IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e ICAR – Igreja Católica Apostólica Romana, numa experiência de estudo, partilha, oração comum, vivenciaram a alegria da unidade na diversidade.

 

01 – Histórico da Semana de Oração

            Dom Manoel João Francisco abordou a História da Semana de Oração, lembrando que Jesus foi o primeiro a rezar pela unidade; “Que todos sejam um...” (Jo 17,21). No decorrer da história do cristianismo sempre houve, através de pessoas e/ou movimentos a preocupação com a unidade, bem como de Igrejas Cristãs.  Há registros a partir de 1740. Em 1908, aconteceu a Celebração da “Oitava pela Unidade dos Cristãos” por iniciativa do reverendo Paul Wattson. E a partir de 1966, a preparação é feita conjuntamente pela “Comissão Fé e Constituição” do Conselho Mundial de Igrejas e o “Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos” da ICAR, com participação de  Grupos Ecumênicos de diferentes países. Neste ano, os textos para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos vêm a nós como expressão da vivência das Igrejas na Coréia. Enfrentando a divisão de seus países (Coréia do Sul e Coréia do Norte), as Igrejas buscaram sua inspiração na Profecia de Ezequiel que viveu, também ele, num país tragicamente dividido, cujo povo aspirava pela unidade.

 

02 – Estudo do tema: “Unidos na tua mão” Ez 37,17

            O assessor, Professor Celso Loraschi, apresentou a proposta de estudo: a profecia de Ezequiel nos ajuda no momento ecumênico. O grande projeto de Ezequiel é a reunificação (Ez 37,15-28). E as três palavras-chave são: Exílio – Profecia – Esperança.

            A profecia de Ezequiel recorda a Aliança com Deus, tem a vontade de Deus, olha para a realidade, traz a sabedoria da fé, é o veículo pelo qual Deus fala e tem como objetivo fazer com que o povo que vive dividido se encontre na Aliança de Deus.

Na sua abordagem questiona o grupo: a partir da experiência das Coréias que exílios temos hoje? O que dispersa e divide o povo? Quais as causas possíveis e que conseqüências para o ecumenismo?

 

Exílios

Causas

Consequências

A história passada – as religiões urbanas - o êxodo rural – os pequenos agricultores – as migrações forçadas – mulheres excluídas – a litoralização – as favelas –exclusões sociais, econômicas e religiosas

Ocultação proposital das causas - centralização de poder – corrupção - má distribuição de renda – cultura imediatista – competição – consumismo – liberalismo – relativismo – absolutismo – auto-suficiência -  medo – poder da mídia

Perda de raízes, de valores – desestruturação familiar – a exploração – injustiças sociais – pobreza – miséria - capitalismo – individualismo – violência com as pessoas e com a natureza fundamentalismo – extermínio de indígenas  - prisão do povo

 

            “O tema escolhido pelas Igrejas da Coréia para a SOUC/2009 sintetiza a proposta da reunificação do povo disperso. O texto corresponde a Ez 37,15-28. Em sua ação simbólica (as duas achas de lenha) Ezequiel traz à memória a experiência histórica da divisão do Reino (931-722): Reino do Norte/Israel/Efraim e o Reino do Sul/Judá. Agora, com o Exílio, acontece nova divisão. A divisão, sob o ponto de vista teológico, na visão profética, é um pecado que traz desgraças ao povo. Por isso, ao delinear o futuro de salvação, deve compreender obrigatoriamente a reunificação das tribos. A mão do profeta que une as duas achas de lenha é símbolo da mão de Deus que age em favor da unidade.

            A partir do anúncio da unidade, o oráculo de salvação traz os aspectos que caracterizam o futuro novo: * retorno à terra da promessa;

                     * um só povo, um só rei-pastor (novo Davi);

                     * a purificação de todas as idolatrias;

                     * povo fiel ao Deus da Aliança, agora renovada de forma definitiva: Ez 37,25-27.

A missão do profeta é “aproximar”: ação humana: “um só na tua mão” (do profeta) e graça de Deus: “para que sejam um só na minha mão” (de Deus). Nunca mais divisões... e a profecia: habitação/santuário no meio do povo... “Vi então um novo céu e uma nova terra...” (Ap 21,1-4)”.

 

A partir de Ez 37, 15-28, na perspectiva ecumênica, algumas questões propostas que o grupo refletiu:

 

Qual utopia

carregamos?

Qual metodologia

para realização desta utopia

Como percebemos a presença de Deus nesta caminhada?

 

Um mundo reconciliado

Respeito à pluralidade e diversidade

 

Podemos “aproximar” a partir de onde moramos

É a utopia se realizando com a visão do todo

Ecumênicos na unidade - “por agora” é possível orarmos e partilharmos juntos - entrar na cultura do ecumenismo - refletir e rezar com diferentes grupos de nossas Igrejas

Sonho coletivo – movimento ecumênico para encarar a realidade num dinamismo de acolher a diversidade na unidade

 

Aproximação – diálogo – oração  escuta para acolher a presença de Deus

 

A partir da mudança de mentalidade fortalecer o sonho de ir e vir  união

Diminuir o processo de exclusão e dominação

Conhecer a realidade em profundidade nas duas versões: oprimidos x opressores

Deus se revela através da ação de cada pessoa que busca o ecumenismo no seu todo

 

Unidade – caminhada das Igrejas

Fidelidade ao Senhor! Celebrar, orar e dar testemunho: só por Cristo, só pela Escritura, só pela fé, no serviço e no amor.

Convencer pessoas pela fé Seminários/ Estudos

Não só na alegria, mas também nas dificuldades!

Deus está conosco em Jesus Cristo, há cruz!

Confiar no poder de Deus que está conosco, nos carrega e vai adiante de nós!

A unidade querida por Deus

Permanecer no agir, semear, sem se preocupar com a colheita...

Às vezes parece inibida devido a pouca ação profética das Igrejas

Unidade visível – restabelecer a unidade visível - não deixa dúvidas – não exclui o diferente

 

Aproximação – diálogo – oração

“Senhor, que queres que eu faça” Atitude de serviço

A união faz a força – na união Deus está – “Onde dois ou mais estiverem reunidos...” – abertura para o desafio – presença da profecia, apesar do caos...

Unidade na diversidade

Ir ao encontro

e reconhecer as diferenças

Grande demais

ás vezes, ofuscada

 

            Prof. Celso Loraschi ressaltou “alguns pontos, ligados ao tema da reunificação: responsabilidade pessoal – a exortação profética não  dirige-se somente ao povo em geral, mas também a cada pessoa...; responsabilidade dos pastores – uma forte censura: a relação não pode ser de senhor e servo, mas um serviço; coração novo e espírito novo – a terra, dada por Deus a seu povo, não é um espaço neutro no qual se movem as pessoas; nela reside a santidade de Deus; o Espírito de Deus, animador dos projetos de esperança – uma nova criação suscitada pela intervenção do Espírito de Deus e pela ação humana.

A certeza que surge da fé na presença viva e atuante de Deus faz emergir uma nova consciência com atitudes de justiça, de solidariedade e de fraternidade: uma nova organização a partir da base. É a Palavra de Deus feita carne na mobilização das próprias pessoas oprimidas, protagonistas de uma nova criação. Uma coisa é conformar-se na dependência das instituições que dominam, dividem e matam; bem outra coisa é afirmar-se como filhos e filhas de Deus!”

            Conclui, fazendo o convite: a “aceitar no silêncio o outro; a despojar-se de nossas terminologias nos encontros; a fazer uma  opção pessoal em favor do encontro com o outro e assumir o ecumenismo como essência da fé”. Lembra que a CF Ecumênica de 2010 é uma grande oportunidade para que as Igrejas Cristãs se unam na reflexão, na oração e na ação.

             Prof. Celso Loraschi nos encaminhou um depoimento sobre o Seminário “Unidos na tua mão” (Ez 37,17) que, agraciados pela partilha de seus conhecimentos e experiência, agradecidos, transcrevemos:

 

             “Para mim, o Seminário de Preparação para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos se caracterizou, em primeiro lugar, como um espaço da vivência da fraternidade entre os representantes de duas Igrejas Cristãs. O clima de alegria e descontração, preparado com carinho pela Equipe do CIER,  testemunhou o que diz o salmista: “Como é bom, como é agradável viver todos juntos, como irmãos” (Sl 133,1). Algumas pessoas, inclusive, lamentaram a ausência de representantes de outras Igrejas que, em encontros passados, se fizeram presentes. Quem sabe, possam retornar em outros encontros ecumênicos para a alegria de todos. 

             Em segundo lugar, os 35 participantes lá compareceram porque apostam na força da oração. Todos nós desejamos ansiosamente a unidade das Igrejas Cristãs. Sabemos que isso acontecerá como dom de Deus, pois “se Deus não constrói a casa, em vão trabalham os construtores” (Sl 127,1). O próprio Jesus aconselhou: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto...” (Mt 7,7). E mais ainda: “Em verdade vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus” (Mt 18,19).

             Em terceiro lugar, a reflexão a partir da realidade do povo coreano que atualmente sofre profundamente a divisão interna do seu país e o estudo da profecia de Ezequiel (37,15-28) num contexto de exílio e dispersão, proporcionou a partilha de sentimentos, de experiências e de sonhos em vista da reunificação dos cristãos e dos povos, tendo em vista a paz “não como o mundo a dá” (Jo 14,27), mas como o Espírito de Deus anunciou através de Ezequiel: “Concluirei com eles uma Aliança de paz, a qual será uma Aliança eterna... A minha Habitação estará no meio deles: eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo”.  (Ez 37,26-27).

              Em quarto lugar, todos manifestaram sua boa vontade de comprometer-se, com novo ardor e novas expressões, na animação e participação da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, unindo-se ao grande “mutirão” de todos os cristãos e cristãs do mundo.  Na diversidade das Igrejas, um só Senhor e Salvador: Ele nos reúne,  nos une, nos cura de nossas feridas e nos liberta de toda divisão e de todo egoísmo; Ele nos proporciona a graça de sermos novas criaturas, capazes de viver e conviver, alimentados pelos frutos do Espírito: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio...” (Gl 5,22-23).

             Além da preparação desta Semana de Oração, foram partilhadas diversas idéias e sugestões para atividades ecumênicas concretas a partir de nossas comunidades eclesiais. A esperança é militante. A unidade é fruto da graça de Deus: “serão um só em minha mão” (Ez 37,19) e do esforço de cadaEzequiél” de hoje: “que estejam unidos na tua mão” (Ez 37, 17)”.

                                                                                                                                      Celso Loraschi