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EUCARISTIA E UNIDADE DA IGREJA - versão Católica
Palestra proferida pelo Bispo - Dom Manoel João Francisco
1. Introdução No início a Igreja católica teve muita dificuldade de aderir à proposta da caminhada ecumênica. Sua concepção era que "fora da Igreja (católica romana) não havia salvação". União de cristãos, por isso, significava "catolicização" dos não católicos. Daí a proibição aos fiéis e ao clero de participarem de qualquer ato promovido pelo movimento ecumênico. O Papa Pio IX, por exemplo, em 1864, fez publicar um elenco dos principais erros do tempo, intitulado Silabo. Entre os tais erros estava o de se considerar "o protestantismo uma forma diversa da verdadeira religião cristã e de achar que nele se podia agradar a Deus, da mesma forma que na Igreja católica" (Dz 1718). A mesma atitude de condenação ainda pairava em Roma no ano de 1928, quando o Papa Pio XI, em sua Encíclica Mortalium animos, reafirmava as razões pelas quais a Santa Sé não dava aos seus fiéis e ao clero a permissão de participar dos congressos e encontros de acatólicos: "A reunião de cristãos só pode ser permitida se for em vista do retorno dos dissidentes à única e verdadeira Igreja de Cristo (isto é a Igreja de Roma), da qual, precisamente um dia, eles tiveram a infeliz idéia de se separar" (AAS 10/1/1928). Em 1948, diante da crescente participação de católicos em encontros ecumênicos, o Santo Ofício, através de um documento, Cum compertum, chamou atenção para que fosse escrupulosamente observado o que estava prescrito no Código de Direito Canônico proibindo os católicos, sem uma especial autorização, de participar e, especialmente, de organizar encontros com não católicos para discutir temas de fé e de moral (AAS 15/06 e 10/7/1948). Aos poucos no entanto, esta atitude rígida foi mudando. Em 1949, com a Instrução, De motione oecumenica, o Santo Ofício reconheceu oficialmente o Movimento Ecumênico como fruto das orações comuns dos fiéis e da ação do Espírito Santo. Consentiu, outrossim, que católicos participassem de seus encontros, sob o estreito controle das autoridades competentes, ou seja, dos bispos diocesanos. Declarou, no entanto, que a única via para atingir a verdadeira unidade era a volta à Roma dos cristãos separados. Finalmente o Concílio Vaticano II reconheceu que a unidade dos cristãos é graça do Espírito Santo alcançada pela oração, pela palavra e pela ação dos fiéis. Por isso, exortou os católicos a participarem ativamente no trabalho ecumênico (UR 4). Chegada a autorização, iniciaram-se os trabalhos de forma muito intensa, tendo como conseqüência a proliferação de acordos ecumênicos sobre os mais diversos temas. Vários sobre a Eucaristia.
2. Acordos Ecumênicos sobre a Eucaristia
Anglicano-Católico
ARCIC, Doutrina sobre a Eucaristia, Declaração de Windsor 1971 ARCIC, Esclarecimento de Salisbury a respeito da Doutrina sobre a Eucaristia, 1979 ARCIC, Esclarecimentos sobre Eucaristia e Ministério, 1993. ARCIC, Esclarecimento sobre Eucaristia e Ministério (Declaração dos coo-presidentes) 1994 Cardeal Cassidy (carta), Esclarecimento sobre Eucaristia e Ministério, 1994 Grupo Misto Anglicano-Católico da Escócia, Relatório sobre a natureza eclesial da Eucaristia, 1973 Grupo Misto Anglicano-Católico da Escócia, Declaração conjunta sobre o sacerdócio e a eucaristia, 1978 Consulta Anglicana-Católica nos USA, Reflexões a respeito da Declaração da ARCIC sobre a Doutrina Eucarística, 1972
Catolico-Luterano
Comissão Mista Católico-Romana/Evangélico-Luterana, A Ceia do Senhor, 1978. Instituto de Pesquisas Ecumênicas de Straburgo, Declaração sobre a hospitalidade eucarística entre católicos e luteranos, 1973. Comissão Mista Católico-Romana/Evangélico-Luterana da Austrália, Sacramento e sacrifício, 1985 Grupo de Diálogo Católico-Luterano da Noruega, A Ceia do Senhor - A Eucaristia, 1982 Comissão Mista Católico-Romana/Evangélico-Luterana dos USA, A Eucaristia como sacrifício, 1967 Comissão Mista Católico-Romana/Evangélico-Luterana dos USA, Eucaristia e Ministério, 1970 Católicos e Luteranos de Nova Iorque, Sumário sobre a doutrina e sobre a prática eucarística, 1981. Comissão bilateral Católico-Luterana do Brasil, Hospitalidade Eucarística. Subsídios de um Seminário, 1998. Comissão bilateral Católico-Luterana do Brasil, Hospitalidade Eucarística. Declaração de um Seminário, 1998 Católico-Metodista
Igreja católica - Igreja Metodista Unida dos USA, A Eucaristia e as Igrejas, 1981.
Católico-Luterano-Reformados
Comissão Mista Católico-Protestante (França), Reflexões e questionamentos relacionados com a "communicatio in sacris" que a Comissão Mista Católico-Protestante coloca para os responsáveis e para os teólogos da Igreja católica e das Igrejas da reforma na França, 1969. Comissões Ecumências das Dioceses da Alsácia e de Lorena (Strasburgo e Metz), Acordo ecumênico sobre o significado da Eucaristia, 1972 Grupo de Dombes, Na direção de uma mesma fé eucarística? Acordo entre católicos e protestantes. 1971 Grupo de Dombes, O significado da Eucaristia. Acordo pastoral, 1972 Grupo Misto de Trabalho Teológico do Secretariado de Atividades Ecumênicas da Itália, A presidência na Eucaristia,, 1976.
Católico-Ortodoxo Calcedonense
Comissão Mista Romano-Ortodoxa, O mistério da Igreja e da Eucaristia à luz do mistério da Santa Trindade, 1982. Consulta Ortodoxa - Católico-Romana dos USA, Declaração conjunta sobre a Eucaristia, 1969. Consulta Ortodoxa - Católico-Romana dos USA, Declaração de acordo sobre o documento de Lima, "Batismo, Eucaristia, Ministério", 1984
Católico-Ortodoxo Oriental
Consulta Ortodoxa Oriental - Católico Romana nos USA, Declaração conjunta sobre a Eucaristia, 1983. Comissão Mista de Diálogo Católica - Ortdoxo Sírio Malancar, Matrimônio e comunhão eucarística (Relatório provisório), 1990
Católico-Reformado-Velhos Católicos
Comissões Ecumênicas para o Diálogo na Suiça, Para um comum testemunho eucarístico das Igrejas (Documento de Trabalho) 1973
Católico e Velhos Católicos
Comissão de Diálogo da Igreja católica cristã da Suiça e da Igreja católica romana da Suiça, Declaração Comunhão eucarística, Comunhão eclesial, 1986.
Conselho Mundial de Igrejas
Comissão Fé e Constituição, Um só Batismo, uma só Eucaristia e um só Ministério mutuamente reconhecido, 1974. Comissão Fé e Constituição, Batismo, Eucaristia, Ministério,(Documento de Lima), 1982
Igreja Católica
Pont. Conselho para a Unidade dos Cristãos, Batismo, Eucaristia, Ministério, Resposta oficial da Igreja Católica ao BEM, 1987 Pont. Conselho para a Unidade dos Cristãos, Instrução sobre a Intercomunhão.
Alguns destes acordos são de caráter particular. (Dombes, por exemplo). A maioria deles, porém, foram elaborados por Comissões oficialmente nomeadas. Resta saber se eles conseguem expressar nossa fé na Eucaristia, pois ainda não têm caráter oficial. São geralmente apresentados nestes termos: "Depois de ter sido unanimemente adotado pelos membros da Comissão o documento é agora oferecido para sua discussão". Segundo declarações do Cardeal Willebrands, primeiro se procura expô-los ao conhecimento e à crítica dos teólogos e especialistas. Só então, poderão ser declarado oficiais. (Doc.Cath. 69(1972)523-524). Não me consta que alguns dos documentos acima citados já foram oficialmente assumidos. Continuamos, portanto, em fase de reflexão. Às Igrejas compete fazer suas críticas e observações. Este nosso simpósio insere-se neste contexto. Devido a exigüidade de tempo, não vai ser possível analisar cada um dos documentos, nem abordar todos os temas neles contidos. Vamos nos deter apenas naqueles que são comuns a todos: presença real, caráter sacrifical, hospitalidade eucarística e a intercomunhão.
3. Presença Real Durante os nove primeiros séculos de sua história os cristãos acreditaram, sem maiores sobressaltos, na presença real de Cristo sob as espécies de pão e de vinho. São muitos os testemunhos que comprovam esta fé. "A Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que sofreu por nossos pecados e que, em sua bondade, o Pai ressuscitou" (Inácio de Antioquia, Esmirn. 7,1). "Não recebemos a Eucaristia como pão ordinário ou como uma bebida comum. Mas precisamente como nosso Salvador Jesus Cristo se fez carne pela Palavra de Deus e teve uma carne e sangue para a nossa salvação, da mesma forma também nós aprendemos que o alimento eucaristizado pela palavra de oração recebida dele é a carne e o sangue de Jesus encarnado, alimento que sendo assimilado alimenta a nossa carne e o nosso sangue" (Justino 1 Apol. 66,2). "O próprio Paulo proclama precisamente: 'Na noite em que foi entregue, Nosso Senhor Jesus Cristo, tomando o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e o deu a seus discípulos dizendo: Tomai, comei, isto é meu corpo. E tomando o cálice e tendo dado graças, disse: Tomai, bebei, isto é o meu sangue'. Se ele em pessoa declarou e disse do pão: 'Isto é meu corpo', quem se atreveria a duvidar doravante? E quando ele afirma categoricamente e diz: 'Isto é o meu sangue', quem duvidaria dizendo não ser seu sangue? [...]. Portanto, com toda certeza recebemo-los como corpo e sangue de Cristo. Em forma de pão te é dado o corpo, e em forma de vinho o sangue, para que te tornes, tomando o corpo e o sangue de Cristo, concorpóreo e consangüíneo com Cristo" (Cirilo de Jerusalém 4ª Cat. Mist. 1 e 3). "Suplicamos ao Deus benigno que envie o Espírito Santo sobre os dons colocados, para fazer do pão corpo de Cristo e do vinho sangue de Cristo. Pois tudo o que o Espírito Santo toca é santificado e transformado (Cirilo de Jerusalém -348-387- 5ª Cat. Mist. 7). A partir do século IX começam a surgir dúvidas e problemas. Alguns teólogos, na tentativa de explicar o "como" Cristo está presente nas espécies de pão e vinho, chegaram a à conclusões muito duvidosas, para não dizer errôneas. Alguns, representados por Pascásio Radberto, optando por um realismo antropofágico, afirmaram que "o pão e o vinho depois da consagração são não só sacramento, mas também o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de nosso Senhor Jesus Cristo que sensivelmente, não só no sacramento, mas em realidade, são tocados e partidos pelas mãos dos sacerdotes e triturados pelos dentes dos fiéis" (DS 690). Outros, capitaneados por Berengário de Tours, aderindo a um simbolismo nominalista, teriam afirmado que a Eucaristia não é verdadeira e substancialmente corpo do Senhor, mas é chamada assim só de nome, porque seria como sombra e figura representativa do corpo e sangue do Senhor. A posição realista carnal antropofágica caiu no gosto popular e permitiu o aparecimento de uma literatura de caráter miraculoso onde se narram diversos fatos de transformação do pão em carne e do vinho em sangue. Fazem parte desta literatura os famosos milagres de Lanciano e Orvieto.(Frei Câncio Berri, OFM, Jesus no Santíssimo Sacramento, Vozes, Petrópolis, 1954. Publicação em preparação ao 36º Congresso Eucarístico Internacional, realizado em 1955 no Rio de Janeiro. Contém 122 histórias de caráter miraculoso). Fugindo da radicalidade de uma e de outra posição, e ao mesmo tempo, mantendo todo o realismo da presença de Cristo na Eucaristia, alguns teólogos, entre eles Tomás de Aquino, auxiliados pela teoria do hilemorfismo, desenvolveram a concepção substancialista que levará à doutrina da transubstanciação, acolhida pelo Magistério da Igreja católica, como expressão mais adequada para explicar o mistério da presença real de Cristo sob as espécies de pão e de vinho. "Em primeiro lugar, o santo Concílio ensina e professa aberta e simplesmente que, no sublime sacramento da santa Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e [verdadeiro] homem, está contido verdadeira, real e substancialmente sob a aparência daquelas coisas sensíveis. Pois não há contradição em que o mesmo nosso Salvador esteja sempre sentado à direita do Pai nos céus, segundo o modo natural de existir, e que, não obstante, esteja para nós sacramentalmente presente em sua substância, em muitos outros lugares, segundo um modo de existência que, embora mal possamos exprimir em palavras, podemos reconhecer pelo pensamento iluminado pela fé como possível para Deus e devemos crê[-lo] firmemente (Dz 874). "Se alguém negar que no santíssimo sacramento da Eucaristia, está contido verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue, juntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, portanto, o Cristo inteiro, mas disser que só estão como que em sinal ou em figura ou na eficácia, seja anátema" (Dz 883). "Se alguém disser que no sacrossanto sacramento da Eucaristia, permanece a substância do pão e do vinho juntamente com o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e negar aquela e singular mudança de toda a substância do pão no corpo e de toda a substância do vinho no sangue, permanecendo só as espécies de pão e vinho; mudança que a Igreja católica chama com muita propriedade transubstanciação, seja anátema" (Dz 884). "Se alguém disser que, depois da consagração, o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo não estão no admirável sacramento da Eucaristia, mas que [eles estão] somente no uso, enquanto são recebidos, mas não antes nem depois, e que o verdadeiro corpo do Senhor não permanece nas hóstias ou partículas consagradas que se guardam ou sobram depois da comunhão, seja anátema" (Dz 886). Em tempos recentes, por causa da crise da teoria do hilemorfismo e da opinião que o termo transubstanciação já não é o mais apropriado para expressar a "singular mudança de toda a substância do pão no corpo e de toda a substância do vinho no sangue, permanecendo apenas as espécies de pão e vinho", foram propostos como alternativa os termos transiginficação e transfinalização. Os defensores desta mudança de terminologia argumentam que "o próprio, o ser íntimo das coisas materiais é aquilo que elas são para o homem. Ora, na Santa Missa, este ser íntimo do pão vem a ser fundamentalmente outro: torna-se o Corpo de Jesus, como alimento para a vida eterna. "Corpo" indica, na mentalidade hebraica, a pessoa em sua totalidade. Quer dizer que o pão tornou-se toda a pessoa de Jesus. Presença cheia de mistério! Não ajuda aqui a imaginação! Não devemos, por exemplo, imaginar-nos que, por assim dizer, o Corpo de Cristo entra, em medida extremamente pequena, em nossa boca, como Ele entrava, em Nazaré, em casa de Maria, em suas dimensões naturais. Por outro lado, devemos guardar-nos do contr'rio, isto é, de explicação meramente simbólica, como se Jesus não estivesse "realmente" presente. Melhor vale dizer: o pão é retirado de seu uso humano normal e torna-se o pão que o Pai nos dá: o próprio Jesus" (Cat. Hol. p. 398) Diante destas opiniões o Magistério da Igreja, através do Papa Paulo VI, embora reconheça como legítimo, e até mesmo aprove, o desejo de perscrutar tão alto mistério, desentranhando as suas inexauríveis riquezas e desvelando-lhes o sentido, sente o dever de premunir do grave perigo que elas representam para a fé autêntica MF 14). A Eucaristia é um mistério de fé, continua o Papa. Dele precisamos nos aproximar com humilde respeito, não dominados por pensamentos humanos. "Salva a integridade da fé, é necessário salvar também a maneira exata de falar, não aconteça que, usando nós palavra ao acaso, entrem em nosso espírito - o que Deus não permita - idéias falsas como expressão da crença nos mais altos mistérios". Lembra em seguida a advertência de Santo Agostinho, que nos orienta a falar segundo uma regra determinada, para evitar que a liberdade de linguagem venha causar maneiras de pensar ímpias, mesmo quanto ao sentido das palavras (MF 23). "Donde se conclui que se deve observar religiosamente a regra de falar, que a Igreja durante longos séculos de trabalho, assistida pelo Espírito Santo, estabeleceu e foi confirmando com a autoridade dos Concílios, regra que, muitas vezes, se veio a tornar sinal e bandeira da ortodoxia da fé. Ninguém presuma mudá-la, a seu arbítrio ou a pretexto de nova ciência"(MF 24). "Pode haver vantagem em explicar essas fórmulas com maior clareza e em palavras mais acessíveis, nunca, porém, em sentido diverso daquele em que foram usadas. Progrida a inteligência da fé, contanto que se mantenha a verdade imutável da fé" (MF 25). Diante destas premissas declara o Papa que "Não é lícito insistir tanto sobre o conceito de sinal sacramental, como se o simbolismo - que todos, é claro, admitimos na Sagrada Eucaristia - exprimisse, única e simplesmente, o modo de presença de Cristo neste sacramento; ou ainda discutir sobre o mistério da transubstanciação sem mencionar a admirável conversão de toda a substância do pão no corpo e de toda a substância do vinho no sangue de Cristo, conversão de que fala o Concílio Tridentino; limitar-se apenas à transignificação e transfinalização, conforme se exprimem. Nem é lícito, por fim, propor e generalizar a opinião que afirma não estar presente Nosso Senhor Jesus Cristo nas hóstias consagradas que sobram, depois da celebração do Sacrifício da Missa" (MF 11). "Para que ninguém entenda mal este modo de presença que supera as leis da natureza e constitui no seu gênero o maior dos milagres é necessário escutar com docilidade a voz da Igreja docente e orante. Esta voz, que repete continuamente a voz de Cristo, ensina-nos que neste Sacramento Cristo se torna presente pela conversão de toda a substância do pão no seu Corpo e de toda a substância do vinho no seu Sangue; conversão admirável e sem paralelo, que a Igreja católica chama, com razão e propriedade, "transubstanciação". Depois da transubstanciação as espécies do pão e do vinho tomam nova significação e nova finalidade, deixando de pertencer a um pão usual e a uma bebida usual, para se tornarem sinal de uma coisa sagrada e sinal de um alimento espiritual; mas só adquirem nova significação e nova finalidade por conterem nova realidade, a que chamamos com razão ontológica (MF 48).
4. Caráter sacrifical Não podemos viver à parte e isoladamente a presença de Cristo na Eucaristia. Ela precisa ser relacionada com as outras dimensões. Principalmente com a dimensão de sacrifício. Não existe uma presença real separada da presença real do sacrifício da cruz. O pão da vida é sempre sacramento da comunhão com sacrifício redentor de Cristo, com o seu mistério pascal no pleno sentido da palavra. A comunhão eucarística não significa apenas encontro pessoal com Cristo, mas acima de tudo comunhão com a sua auto-oblação e expressão de que somos seus seguidores, entregando-nos também, com ele, ao Pai em favor dos irmãos. Vários cantos de comunhão expressam de modo muito claro esta nossa fé. Recordo apenas um: "Celebrar a Eucaristia com famintos e humilhados/ como o pobre lavrador sem ter nada no roçado/ é estar em comunhão com Jesus Crucificado. Celebrar a Eucaristia/ é também ser torturado/ é ser perseguido, e preso/. É ser marginalizado/ ser entregue aos tribunais/ numa cruz pra ser pregado". João Paulo II, na Encíclica Ecclesia de Eucharistia recorda que a Eucaristia nasceu "na noite em que o Senhor foi entregue" e que por isso carrega indelevelmente em si o evento da paixão e morte do Senhor. "É o sacrifício da cruz que se perpetua através dos séculos. Esta verdade está claramente expressa nas palavras com que o povo, no rito latino, responde a proclamação "mistério da fé" feita pelo sacerdote: "Anunciamos, Senhor a vossa morte".[...]. Quando a Igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e "realiza-se também a obra de nossa redenção". Este sacrifício é tão decisivo para a salvação do gênero humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos como se estivéssemos presentes." Isto só é possível porque "tudo o que Cristo é, e tudo o que Cristo fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente" (EE 11). Para compreender nossa participação no Sacrifício da Cruz precisamos recorrer ao conceito de memorial. Fazer memória na Bíblia significa re-apresentar ou re-atualizar o passado que jamais permanece simples passado, mas continua permanentemente e eficazmente presente. "Este dia será para vós um memorial, e o celebrareis como uma festa para Javeh; nas vossas gerações a festejareis; é um decreto perpétuo" (Ex 12,14). Na celebração da Ceia Pascal, o filho mais jovem pergunta ao pai: "Por que esta noite é diferente de todas as outras noites? (Ex. 12,26). O pai então responde contando a história da libertação (Dt 26,5-9). Conclui sua fala com uma solene exortação, atribuída ao Rabbán Gamaliel: "De geração em geração cada um é obrigado a ver-se a si próprio como tendo ele mesmo saído do Egito... O Santo, bendito seja ele, não remiu só a nossos pais, mas também a nós com eles...". Trata-se, portanto, de uma re-apresentação real que é levada a termo em cada celebração ritual. Não no sentido de uma re-apresentação do evento fundador a nós, mas no sentido de uma re-apresentação nossa ao evento fundador. De fato a passagem do Mar Vermelho permanece um evento único e irrepetível. Não se pode por isso querer que se faça presente, no sentido que possa ser, por assim dizer "renovado". É a comunidade cultual que, superando pela celebração do rito toda a barreira de tempo e de espaço, efetivamente se coloca à margem do Mar. Por isso, coerente com a realidade dessa re-apresentação de fé, o pai de família admoesta dizendo: "cada um é obrigado a ver-se a si próprio como tendo ele mesmo saído do Egito". "Se Jesus não tivesse instituído a Eucaristia, o evento de sua morte e ressurreição teria permanecido isolado naquelas coordenadas espaço-temporais que foram então as suas, e a Igreja das gerações subseqüentes, que somos nós, não teria tido maneira de voltar a imergir salvificamente na morte-ressurreição de Jesus. Celebrar a Eucaristia quer dizer comungar com o Vivente, que continua a dar-se a nós no sinal de sua morte, para permitir-nos ser re-apresentados sacramentalmente à eficácia redentora do único sacrifício. Segue-se daí que devemos nos sentir teológicamente em movimento toda vez que nos aproximamos da comunhão. Devemos habituar-nos a tomar consciência do movimento sempre mais intenso de nossos pés teológicos. Enquanto os pés físicos continuam a deter-nos na igreja, os pés da fé eucarística nos transportam lá para o Calvário, para imergir-nos ainda uma vez na morte do Senhor Jesus, lá para diante da tumba do Ressuscitado, para ressurgir ainda uma vez com ele para uma existência relacional sempre nova, já que nossa missa é todo o Calvário, é todo o fulgor da manhã de Páscoa ( C. Giraudo, Num só Corpo, ed. Loyola, 2003, p. 91).
5. Hospitalidade eucarística e Intercomunhão Comecemos clareando os termos. Hospitalidade eucarística é a possibilidade de participar nas ceias celebradas por outra confissão. Não é a concelebraçào e a participação não é constante. Acontece onde cada Igreja celebra o sacramento a seu modo, admitindo, em situações especiais, membros de outras Igrejas. Intercomunhão é a celebração conjunta da Ceia por duas ou mais Igrejas. Tanto a hospitalidade eucarística, quanto a intercomunhão merecem um estudo aprofundado, pois na realidade de nossas Igrejas elas pedem uma resposta urgente. - Em certos lugares, cristãos de diferentes Igrejas, já se encontram, com certa freqüência, ao redor da mesma mesa eucarística. - A comunhão de fé experimentada em certos grupos ecumênicos, em lares mistos e até mesmo em certas comunidades cristãs, faz com que vários destes cristãos solicitem a possibilidade de expressar a fé comum na partilha da mesma mesa eucarística. Diante da convergência teológica a respeito da Eucaristia apresentada pelos Acordos Ecumênicos e tendo em conta certas circunstâncias e em determinadas condições, alguns não vêem mais motivos para que lhes seja vetada esta possibilidade. Pelo contrário, se sentem até na obrigação de comungar durante uma celebração eucarística de outra Igreja e no direito de não serem julgados pelas autoridades ou pelos seus irmãos de sua Igreja, como se tivessem cometido uma ação repreensível. Nestes dois pontos temos ainda um longo caminho a percorrer. A posição da Igreja católica encontra-se em diversos documentos. Aqui farei apenas breves comentários a alguns textos que vou citar. "Não é lícito considerar a intercomunhão (communicatio in sacris) como um meio a ser aplicado indiscriminadamente na restauração da unidade dos cristãos. Esta intercomunhão depende pricipuamente de dois princípios: da unidade da Igreja que ela deve significar e da participação nos meios da graça. A significação da unidade proíbe, na maioria das vezes, a intercomunhão. A busca da graça, às vezes, a recomenda. Sobre o modo concreto de agir decida prudentemente a autoridade do Bispo local, considerando todas as circunstâncias dos tempos, lugares, pessoas, a não ser que outra coisa seja determindada pela conferência episcopal, segundo seus próprios estatutos, ou pela Santa Sé" (UR 8/785). As razões deste posicionamento do Concílio são as seguintes: 1) Nas celebrações expressamos nossa fé específica. "Lex orandi, lex credendi". A celebração conjunta com outra Igreja significaria uma implícita profissão de fé naquilo que sua Igreja considera errado ou falso. Neste caso, ou estamos fingindo, ou estamos aprovando o que nossa Igreja considera erro, caracterizando uma espécie de cisma. 2) A celebração conjunta, mantendo cada Igreja a sua própria fé, corre o risco de levar os fiéis ao indiferentismo.
"A Igreja católica, duma maneira geral, admite à comunhão eucarística e aos sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos unicamente aqueles que se encontram na sua unidade de fé, de culto e de vida eclesial. Pelas mesmas razões a Igreja reconhece também que, em certas circunstâncias a título excepcional e sob certas condições, a admissão estes sacramentos pode ser autorizada ou até aconselhada a cristãos de outras Igrejas ou Comunidades Eclesiais. Em caso de perigo de morte ou de grave e premente necessidade, qualquer ministro católico pode administrar os sacramentos da Eucaristia, da Penitência e da Unção dos Enfermos a uma pessoa batizada, segundo as seguintes condições: que essa pessoa se encontre impossibilitada de recorrer, para o sacramento desejado, a um ministro da sua Igreja ou Comunidade Eclesial; que solicite este sacramento de sua livre vontade; que manifeste a fé católica neste sacramento; e que esteja devidamente preparada. Um católico, fundamentado na doutrina católica dos sacramentos e da sua validade, só pode solicitar estes sacramentos a um ministro de uma Igreja cujos sacramentos são válidos ou a um ministro que, segundo a doutrina católica da ordenação, é reconhecido como validamente ordenado (Diret. Ecum. nn. 129-132). É claro que esta orientação precisa ser levada muito a sério, mas ao mesmo tempo, é preciso lembrar que, conforme o próprio Concílio Vaticano II, a celebração eucarística presidida por um ministro, cuja ordenação não é reconhecida como válida, não deixa de ter o seu sentido e o seu valor. "Embora falte às Comunidades Eclesiais de nós separadas a unidade plena conosco proveniente do batismo e embora creiamos que elas não tenham conservado a genuína e íntegra substância do Mistério Eucarístico, sobretudo por causa da falta do sacramento da Ordem, contudo, quando na Santa Ceia fazem a memória da morte e ressurreição do Senhor, elas confessam ser significada a vida na comunhão de Cristo e esperam seu glorioso advento. É por isso necessário que se tome como objeto do diálogo a doutrina sobre a Ceia do Senhor,..."(UR 22/824)
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