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A EUCARISTIA, TESOURO DO CRISTIANISMO Uma compreensão protestante
1 - Por ocasião de sua visita ao Brasil em 1991 aconteceu em Florianópolis nas dependências do Colégio Catarinense, o encontro ecumênico de Sua Santidade Papa João Paulo II com lideranças de diversas igrejas não católicas. Nós o saudamos fraternalmente e lhe dissemos que em terras brasileiras o ecumenismo ainda era uma planta frágil e lhe entregamos um presente simbólico: um cálice de cristal. O cristal é lindo, transparente, delicado e frágil. Pudemos dizer ao Papa que o cálice simboliza a nossa prece e a nossa esperança da unidade de todos os cristãos.Olhamos para o horizonte buscando ver o dia em que estaremos todos reunidos em torno da mesa comum comendo do mesmo pão e bebendo do mesmo cálice.No dia em que podemos celebrar juntos a Santa Ceia - a Eucaristia, seguindo as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo “Tomai e comei” e “bebei dele todos”, a plena comunhão estará estabelecida.
2 - Lembramos que o cálice já foi símbolo e sinal de desunião, de controvérsia e até de guerra. Em Praga,.capital da República Tcheca , a capela de Belém tem na sua parede frontal pintado um cálice. Nesta capela foi celebrada a primeira Santa Ceia -“sub utraque specie” – sob as duas espécies no começo do século 15. Este movimento revolucionário liderado por João Hus e denominado Pré-reformatório tinha na bandeira o cálice como seu símbolo. A modalidade de negar a distribuição do cálice aos fiéis surgiu no século XII com a argumentação de que em cada um dos elementos (pão e vinho) o Cristo inteiro está presente, que há o perigo de derramar do precioso sangue e a dificuldade de conservar o vinho. O movimento da Reforma no século XVI, liderado por Lutero, fez da distribuição do cálice aos fiéis uma de suas bandeiras. Isto por causa da palavra de Jesus “bebei dele todos” e da compreensão do ministério. Não houve acordo e a celebração da Santa Ceia com a distribuição do pão ou do pão e do vinho foi um sinal visível da separação da Igreja. O indulto do Papa Pio IV que permitiu em 1564 a distribuição do cálice aos fiéis em diversas áreas da Alemanha foi uma tentativa de unir o que estava separado. Mas esta medida foi retirada em 1584 pelo Papa Gregório XIII por causar muita confusão e não ter ajudado a reconciliar católicos e protestantes. O cálice da Santa Ceia tornou-se símbolo da desunião. 3 - Este é o pano de fundo histórico. Desde então muita coisa mudou Alguns poucos dados relativos ao cálice: O Concílio Vaticano II, na Constituição SACROSANCTUM CONCILIUM promulgada em 1963, estabeleceu com salvaguardas que “a comunhão sob as duas espécies pode ser concedida” (612). Nós entendemos que em princípio está aqui superado um dos motivos aparentes da separação no século XVI. Em 1982 foi aprovado o documento BATISMO EUCARISTIA MINISTÉRIO pela Comissão de Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas. Este documento conhecido como texto de Lima ou pela abreviação BEM foi elaborado num longo período de 55 anos pois seu início data de 1927 quando foi iniciado em Lausanne na Suíça pela primeira Conferência da Comissão de Fé e Constituição e concluído na reunião desta Comissão em 1982 em Lima,no Peru. Foi enviado a todas as igrejas para que estas se posicionassem. É o documento ecumênico de maior alcance em toda a história do movimento ecumênico. Ainda está em processo de recepção. Este documento constata: “O movimento da reforma litúrgica aproximou as Igrejas na sua maneira de celebrar a eucaristia.” 4 - Depois do Concílio Vaticano II muito se tem estudado em diálogos bilaterais e multilaterais. O Decreto “Unitatis Redintegratio” afirma (824) “Embora falte às Comunidades eclesiais de nós separadas a unidade plena conosco proveniente do batismo e embora creiamos que elas não tenham conservado a genuína e íntegra substancia do Mistério Eucarístico, sobretudo por causa da falta do sacramento da Ordem, contudo, quando na Santa Ceia fazem a memória da morte e ressurreição do Senhor, elas confessam ser significada a vida na comunhão de Cristo e esperam seu glorioso advento.É, por isso, necessário que se tome como objeto do diálogo a doutrina sobre a Ceia do Senhor, sobre os outros sacramentos e sobre os ministérios da Igreja” Muito foi realizado nestes pouco mais e 40 anos desde então. Muito se estudou, muito se dialogou. Um dos exemplos concretos deste diálogo aconteceu e acontece entre nós aqui no Brasil, concretamente entre a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Em dezembro de 1998, nos dias 7 e 8, foi realizado em Porto Alegre pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e pela Igreja Católica Apostólica Romana um seminário teológico pastoral sobre o tema Hospitalidade Eucarística. Os 23 participantes deste seminário bilateral descreveram assim a Hospitalidade Eucarística: “A hospitalidade eucarística é a possibilidade de participar nas ceias celebradas por outra confissão. Não é a concelebração e a participação constante. Acontece onde cada Igreja ministra o sacramento ao seu modo, admitindo, em situações especiais, membros de outra igreja”.E acrescentaram “Cristo nos faz sonhar com a comunhão plena entre comunidades das duas igrejas que celebrem juntas a mesa do Senhor. Isto é o que denomina comumente com o termo intercomunhão.” 5 - A intercomunhão – a comunhão plena entre comunidades das duas igrejas é um sonho. Se este é o sonho, a realidade é outra, é bem outra. Não temos esta comunhão plena e não temos a hospitalidade eucarística. Mas mesmo assim podemos e devemos constatar que houve grandes avanços, avanços estes que não nos permitem ignorar as imensas dificuldades que estão diante de nós e ao redor de nós. Podemos unir as nossas vozes à dos participantes do seminário bilateral brasileiro de 1998 em Porto Alegre e exclamar e simultaneamente lamentar : “Constatamos, com alegria, que no Santo Batismo nos aceitamos uns aos outros como filhos e filhas do mesmo Pai e, portanto, como irmãos e irmãs. Somos incorporados em Cristo, por meio desse santo sacramento. Mas é lamentável e escandaloso o fato de que na mesa do Senhor ainda estejamos divididos e não possamos ir juntos à mesma Santa Ceia”.(Hospitalidade Eucarística, pg 10 - §1 da declaração) Podemos, no entanto, constatar com mais sobriedade, repetindo as palavras do Presidente do Conselho da Igreja Evangélica da Alemanha em 2002 na apresentação do documento intitulado “A Santa Ceia”: “Dificilmente haverá outra área da vida e da espiritualidade cristãs em que tanto se brigou e sofreu, tanto se ensinou e dividiu, tanto se creu e se desesperou como na compreensão e na prática da Santa Ceia. Designando-se o Batismo como a porta de entrada na comunhão cristã, a Santa Ceia é o porto pátrio de todo crer.” (A Santa Ceia,pg 7)
6 – Nós estamos firmemente amparados na convicção de que aquilo que nos une é muito maior do que aquilo que nos separa.Sempre de novo deve ser repetido este princípio para que não sejamos ofuscados por aquilo que nos separa impedindo assim a visão da aurora ecumênica.Aplicando este princípio à história constatamos que protestantes e católicos tem uma história comum de 1.500 anos e “apenas” 500 anos de separação. Ou aplicando este princípio à celebração eucarística: Nós estamos muito próximos uns dos outros.Nossa base comum é a afirmação de Lutero no Catecismo Menor em uso nas igrejas luteranas: “É o verdadeiro corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo...”O que de fato nos separa é o “defectus ordinis”, a falta do sacramento da Ordem. A transubstanciação nos é estranha. Entendemos que a Santa Ceia compreende tanto a memória – as palavras da instituição, como a oração, e a distribuição do pão e vinho que são o verdadeiro corpo e sangue de Jesus Cristo. Prestamos, no entanto muita atenção para a recomendação do citado documento BATISMO,EUCARISTIA,MINISTÉRIO quando diz: “Certas Igrejas na direção da presença de Cristo nos elementos consagrados na eucaristia, depois da celebração; outras sublinham antes o ato da celebração em si mesmo e o consumo dos elementos na comunhão........No que respeita à reserva dos elementos, cada Igreja deveria respeitar as práticas e a piedade das outras.”
7 - Vale aqui lembrar que no ano de 2003 as igrejas da Alemanha realizaram o Kirchentag Ecumênico. Este Kirchentag – Dia da Igreja é realizado anualmente pelas igrejas,o maior evento religioso em solo alemão. Num ano é o Kirchentag evangélico e no outro o católico. Pressionadas pelos movimentos leigos as direções das igrejas concordaram em realizar em 2003 este evento a nível ecumênico.Muitos documentos e apostilas de preparação para este mega-evento foram elaboradas e distribuídas. Um dos temas conflitantes foi a pergunta pela celebração da Santa Ceia, a Eucaristia.Dentro deste contexto surgiu o documento teológico pastoral editado pelo Conselho d Igreja Evangélica da Alemanha, que agora foi traduzido para o português e está sendo distribuído. Este documento, por sua vez, se baseia na Concórdia de Leuenberg,a declaração assinada pela maioria das igrejas protestantes históricas.
8 - Inverno ecumênico – como vamos caminhar adiante? Talvez nem seja o inverno que estamos vivendo, mas o outono. Periga ficar mais frio ainda, mas assim como vemos lá longe no horizonte a primavera assim esperamos também que Deus nos abençoe com uma nova primavera ecumênica. Enquanto isto vamos lembrar que temos muitos frutos a colher e muitas conquistas a conservar. Inspirador é o documento denominado DECLARAÇÃO CONJUNTA que em diversas passagens revela a “chave misteriosa” que abriu as portas para o consenso sobre a doutrina da justificação. Esta chave misteriosa é a confissão: FOMOS LEVADOS A ESSAS NOVAS PERCEPÇÕES POR NOSSA MANEIRA CONJUNTA DE ESCUTAR A PALAVRA DE DEUS NAS SAGRADAS ESCRITURAS. Seguindo por esta estrada da maneira conjunta de escutar a palavra de Deus nas Sagradas Escrituras celebraremos a Eucaristia juntos, na hospitalidade eucarística, na intercomunhão e na unidade plena, isto quando a oração de nossos Senhor Jesus Cristo for atendida: “ a fim de que todos sejam um”.
9 – Estamos convencidos de que “a celebração comum da Ceia dos Senhor é o sinal e a expressão mais plena da comunhão eclesial” e que “a eucaristia é, ao mesmo tempo fonte e ponto culminante da vida eclesial; sem comunhão eucarística não há plena comunhão eclesial, sem comunhão eclesial não há nenhuma verdadeira comunhão eucarística”.
P. Em. Meinrad Piske - IECLB
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