Painel Ecumênico - ITESC, 18 de maio de 2006

Eucaristia e Unidade dos Cristãos

Abertura

            A eucaristia é a celebração da redenção da humanidade que Deus realiza pela vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. A sua celebração é um ato de fé no projeto redentor de Deus. Simultaneamente, é comprometer-se para que esse projeto se realize na vida dos cristãos, em suas igrejas e no mundo. Essencialmente, trata-se de uma vida de comunhão, com Deus e com a humanidade inteira. Isso significa que a eucaristia envolve os que a celebram num processo de conversão, buscando compreender a vida na perspectiva evangélica da partilha, da solidariedade, da comunhão. Na vida cristã, tudo o que converge para a unidade e a comunhão tem dimensão eucarística. E tudo o que trai a unidade e a comunhão é negação da eucaristia.

Isso tem implicações para todos os cristãos que, em suas diferentes tradições eclesiais, celebram a eucaristia/ceia como memória da páscoa de Cristo. O compromisso com a memória celebrada os leva a um compromisso mútuo, de fazer com que essa memória se realize na vida das igrejas e do mundo.

Por isso, urge refletir sobre a dimensão ecumênica da eucaristia, entendendo a comunhão eucarística como uma realidade à qual são chamados todos os que procuram viver coerentemente o evangelho de Jesus Cristo. Muitas são as questões que dividem os cristãos e as igrejas. Ritos, doutrinas, linguagens diferentes foram se construindo ao longo da história de separação. É preciso dialogar, serenamente e com amor à verdade, sobre essas questões. Não para anular as diferenças, mas para reconciliar aqueles elementos que são causa e expressão de divisão. Não para alterar o ensino de nossas igrejas – não nos sentimos autorizados para tanto. Mas para, humildemente, contribuir para que nossas Igreja se encontrem, no futuro, numa compreensão e numa prática comuns acerca do mistério eucarístico. Buscamos, assim, explicitar a pertinência ecumênica da páscoa de Cristo. E alimentamos a convicção que por maior que sejam os fatores de divisão entre as nossas igrejas, a fé eucarística nos ensina que não existem obstáculos insuperáveis para a comunhão. Por ora, sejamos realistas diante do distanciamento existente entre nós. Mas não deixemos de crer que a comunhão que a eucaristia significa e realiza é a meta de toda a criação.

Fundamental para isso é compreender que o Espírito que une os cristãos ao redor da mesa do pão e do vinho, os une também entre si. Na força do Espírito é que se forma a Igreja como “Corpo de Cristo”, uno e único, em suas diferentes manifestações na história. 

Aqui estamos, convocados pela mesa da Ceia do Senhor para compormos a mesa do diálogo. Se ainda não nos é possível comungar do pão e do vinho, podemos comungar de nossas vidas e das vidas de nossas igrejas. Podemos partilhar as esperanças, os temores, as dores e as alegrias da vida cristã. Podemos partilhar a missão de testemunahar o evangelho no mundo. Essa partilha coloca os fundamentos da comunhão futura de nossas igrejas, quando poderemos, então, participar juntos da Ceia que o Senhor prepara para nós. 

O que hoje acontece aqui, insere-se no conjunto dos esforços de diálogo que, com sacrifício e teimosia da fé, igrejas e grupos ecumênicos vêm realizando ao longo dos anos. A Igreja católica participa hoje de cerca de 16 Comissões de diálogo teológico no nível internacional e de três no âmbito nacional (contando com os judeus). No diálogo internacional, entre católicos e luteranos, já foram publicados 12  documentos de estudos;  5 documentos no diálogo católico-metodista; 3 no diálogo católico-reformados; 10 no diálogo católico anglicano;  6 no diálogo católico ortodoxo. No nível nacional, é importante lembrar o Seminário sobre hospitalidade eucarística, realizado pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC, no ano de 1999. No conjunto das questões refletidas nesses documentos (Igreja, magistério, ministérios ordenados, evangelização, sociedade...), a Eucaristia/Ceia do Senhor ocupa o lugar central.

Portanto, o que hoje fazemos não é um ato isolado. Não estamos sós. Esse Painel Ecumênico sobre a Eucaristia e a unidade dos Cristãos é um elo de união não apenas entre nós, mas com todos os que crêem no restabelecimento da comunhão na fé e na Igreja, ansiando pela partilha do mesmo pão e do mesmo vinho consagrados na Ceia do Senhor. Evidentemente, nossa iniciativa não tem a envergadura de tantas outras do diálogo intereclesial. Mas ela não é diminuída em seu valor para o diálogo local que procuramos construir entre nossas igrejas. E é o que podemos oferecer, com humildade, para o diálogo que acontece em outras instâncias. Não é menos significativo o fato de realizarmos esse Painel nesta casa, centro de reflexão teológica da Igreja católica em Santa Catarina. Outras vezes aqui nos encontramos, membros de Igrejas diferentes para compormos a mesa do diálogo. Isso contribui para desenvolver a dimensão ecumênica da teologia que aqui se produz, conforme a orientação do magistério eclesial. E o fato de realizarmos esse Painel na iminência do início do XV Congresso Eucarístico Nacional da Igreja católica, quer expressar o compromisso desta Igreja, em particular, no diálogo que visa a realização do desejo do Mestre: “Que todos sejam um ... para que o mundo creia” (Jo 17,21).

Portanto, é com imensa alegria e esperança nos frutos do diálogo que, como Coordenador do Departamento de Diálogo Ecumênico e Inter-religioso deste Instituto, faço a abertura desse Painel dizendo a cada um/a de vocês: Bem-vinda, bem-vindo. Na mesa do diálogo, todos têm lugar.

 

Pe. Elias Wolff

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