Tratando do ecumenismo encontramos, de um lado, as divisões entre igrejas e cristãos e, de outro lado, a aspiração pela reconciliação. As divisões expressam pecados históricos, pessoais e comunitários, que dão origem a verdadeiras «estruturas de pecado». Apontam para cristalizações de um mal estar que se tornou cultura, organizações, tradições, e, inclusive, teologias e instituições. As igrejas vivem hoje na divisão, fruto da diversidade de itinerários teológicos e de contingências históricas infelizmente já consolidadas. A diversidade, que em si mesma não é negativa, foi vivida de modo conflitivo e gerou divisões.
Urge refletir e rezar sobre esta triste realidade da divisão entre
igrejas, pessoas, povos, e fazer penitência. A Igreja, mesmo sendo santa pela
sua incorporação a Cristo, sente-se necessitada de purificação e conversão. O
pecado habita na Igreja pelas faltas de seus filhos. Por isso é necessário uma
incessante busca de renovação e de perfeição na fidelidade ao Evangelho da unidade. Essa fidelidade
será vivida apenas quando os cristãos estiverem dispostos a fazerem do
itinerário ecumênico um itinerário de conversão, pelo arrependimento dos erros,
infidelidades e incoerências que aprofundam as divisões.
Entre os pecados que exigem um maior esforço de penitência e conversão,
estão aqueles que prejudicam a unidade
desejada por Deus para o seu povo. O mundo cristão vive dolorosas rachaduras
que contradizem escandalosamente o Evangelho. É necessário reparar essa
situação, invocando com confiança o perdão de Deus. É preciso pedir perdão pelos métodos de intolerância e, inclusive,
de violência existentes em nosso meio. O serviço à verdade vai de mãos dadas
com a tolerância, a paciência, a caridade. E quando isso não acontece, o desejo
de fidelidade pode ser anti-evangélico, ferindo a unidade na
caridade.
O caminho ecumênico é exigente mas também inevitável se queremos ser
fiéis à palavra de Cristo que exorta à unidade (Jo 17). É, certamente, um
caminho de reconciliação. A reconciliação é, antes de tudo, com Deus, pois é
diante dele que aparecemos como pecadores, produzindo ou intensificando as
divisões. E é também com os «pequenos» do Evangelho, pois diante deles as
divisões aparecem como escândalo.
Por isso, a reconciliação não é coisa simples. Exige de todos - ninguém
está excluído - o reconhecimento dos próprios pecados, o arrependimento sincero
de coração, sem rancores ou mágoas. A reconciliação exige uma verdadeira
conversão da mente e do coração, uma mudança de comportamento, que é o teste da
sinceridade da reconciliação. Nesse processo, deve-se estar aberto à escuta do
outro, à correção fraterna, à busca apaixonada da verdade na caridade. A
reconciliação é, no horizonte humano, um caminho difícil e exigente. No
horizonte do divino é um dom de Cristo (Rm 5,11).
Ecumenismo é reconciliação. A oração, a penitência, a prática da justiça
nos re-une. A
diversidade reconciliada: esse é o objetivo a ser atingido pelo itinerário
ecumênico. Humanamente, esse projeto parece impossível. Mas «nada é impossível a
Deus» (Lc 1,37). A nós, cabe alimentar a fé e a esperança. A nós cabe fortalecer
a paixão ecumênica e preparar a unidade futura com nossos gestos de
reconciliação, ainda se limitados. A nós cabe o reconhecimento das faltas
cometidas contra o projeto de unidade, e pedir, humildemente: «Senhor, tem
piedade de mim» (Mc 10,47).
Pe. Elias Wolff
Presbítero
da diocese de Lages e professor de teologia no ITESC
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