QUARESMA - ECUMENISMO E RECONCILIAÇÃO

 

            Tratando do ecumenismo, nos defrontamos de um lado com as divisões entre igrejas e cristãos e, de outro lado, a aspiração pela reconciliação.  As divisões expressam pecados históricos, sociais e coletivos, que dão origem a verdadeiras «estruturas de pecado». Apontam para cristalizações de um mal estar que se tornou cultura, organizações, tradições, e, inclusive, teologias e instituições. As igrejas vivem hoje na divisão, fruto da diversidade de itinerários teológicos e de contingências históricas infelizmente já consolidadas. A diversidade, que em si mesma não é negativa, foi vivida de modo conflitivo e gerou divisões.

            Nesse período de Quaresma, urge refletir e rezar sobre a triste realidade da divisão entre igrejas, pessoas, povos, e fazer penitência. A Igreja, mesmo sendo santa pela sua incorporação a Cristo, também se reconhece como necessitada de purificação e conversão. O pecado habita na Igreja pelas faltas de seus filhos. Por isso é necessário uma incessante busca de renovação e de perfeição na fidelidade ao Evangelho da unidade. Essa fidelidade será vivida apenas quando os cristãos estiverem dispostos a fazerem do itinerário ecumênico um itinerário de conversão, pelo arrependimento dos erros, infidelidades e incoerências que aprofundam as divisões.

            Entre os pecados que exigem um maior esforço de penitência e conversão, estão aqueles que prejudicam a unidade desejada por Deus para o seu povo. O mundo cristão vive dolorosas rachaduras que contradizem escandalosamente o Evangelho. É necessário reparar essa situação, invocando com confiança o perdão de Deus. É preciso pedir perdão também pelos métodos de intolerância e, inclusive, de violência existentes nos meios eclesiásticos. O serviço à verdade vai de mãos dadas com a tolerância, a paciência, a caridade. E quando isso não acontece, o desejo de fidelidade pode ser anti-evangélico, ferindo a unidade na caridade.

            O caminho ecumênico é exigente mas também inevitável se as igrejas querem ser fiéis à palavra de Cristo que exorta à unidade. É, certamente, um caminho de reconciliação. A reconciliação é, antes de tudo, com Deus, pois é diante dele que aparecemos como pecadores, produzindo ou intensificando as divisões. E é também com os «pequenos» do Evangelho, pois diante deles as divisões aparecem como escândalo.

            Por isso, a reconciliação não é coisa simples. Exige de todos - ninguém está excluído - o reconhecimento dos próprios pecados, o arrependimento sincero de coração, sem rancores ou mágoas. A reconciliação exige uma verdadeira conversão da mente e do coração, uma mudança de comportamento, que é o teste da sinceridade da reconciliação. Nesse processo, deve-se estar aberto à escuta do outro, à correção fraterna, a busca apaixonada da verdade na caridade. A reconciliação é, no horizonte humano, um caminho difícil e exigente. No horizonte do divino é um dom de Cristo (Rm 5,11).

            Quaresma é reconciliação. A oração, a penitência, a prática da justiça nos re-une. Quaresma é um tempo de graça na busca da unidade. A diversidade reconciliada: esse é o objetivo a ser atingido pelo itinerário ecumênico. Humanamente, esse projeto parece impossível. Mas «nada é impossível a Deus» (Lc 1,37). A nós, cabe alimentar a fé e a esperança. A nós cabe fortalecer a paixão ecumênica e preparar a unidade futura com nossos gestos de reconciliação, ainda se limitados. A nós cabe o reconhecimento das faltas cometidas contra o projeto de unidade, e pedir, humildemente: «Senhor, tem piedade de mim» (Mc 10,47).

 

                                                Pe. Elias Wolff