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Igualdade racial, identidade e fé cristã
Antonio Carlos
Ribeiro A capital mato-grossense recebeu a II Conferência de Igualdade Racial, de 5 a 7 de dezembro, para debater Políticas de Promoção da Igualdade Racial e avaliar o Plano Nacional. O evento deve reunir 250 delegados de diversas cidades do Estado e contará com a presença do ministro da Igualdade Racial, Edson Santos (PT-RJ). Na solenidade de abertura haverá o lançamento do livro História e Cultura Negra: quilombos em Mato Grosso, elaborado pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC-MT). O evento cria nova oportunidade de pensar nos modos de lidar com a questão, percebendo os que enfatizam as diferenças e os que acentuam as semelhanças. Um prioriza o específico, entende-se privilegiado e empenha-se por preservar o elemento cultural que o distingue; outro volta-se para o universal, identifica-se com a humanidade, percebe as possibilidades que se descortinam e atende à exigência da universalidade. O fato traz de volta o debate do conceito de identificação de Stuart Hall, o antropólogo dos estudos transculturais que propõe uma crítica desconstrutiva dos conceitos essencialistas de identidade, colocando os termos sob suspeita. Ele explica porque vivemos uma situação de contingência em que esses conceitos não foram dialeticamente superados, ao mesmo tempo em que ainda não surgiram conceitos que possam substituí-los. Por essa razão Hall chama essa estratégia de “escrita dupla”, baseada em Jacques Derrida, que a descreve como “estratificada, deslocada e deslocadora”. A identificação é “construída a partir do reconhecimento de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com outros grupos ou pessoas, ou ainda a partir de um mesmo ideal”. É o fundamento pelo qual ocorre “o natural fechamento que forma a base da solidariedade e da fidelidade do grupo em questão”. A identificação está situada na contingência que, mesmo assegurada, não anula a diferença, mas fantasia a incorporação ao fundir o mesmo no outro. Hall enfatiza que é uma articulação, uma “suturação” que participa do jogo da “différence”, com o discurso que fecha e marca fronteiras. Motivar a identificação é o recurso através do qual Barack Obama, presidente eleito dos Estados Unidos, balançou corações e mentes no discurso proferido na noite de 5 de novembro, em Chicago, sem esquecer Luther King, “um pregador de Atlanta que disse a um povo: ‘Superaremos’”. E a multidão fez coro: “we can!” (nós podemos!). Na verdade, ela exterioriza o que a constitui “a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa”, que ele foi buscar em Sigmund Freud, sem perder de vista que também é uma moldagem de acordo com o outro e está fundada na fantasia, na projeção e na idealização. Aqui sobressai a falha do cristianismo brasileiro, sobre a qual o teólogo Gottfried Brakemeier ponderou: “Se é verdade que a graça de Deus fundamenta a comunidade, por que há tantos entraves para a filiação de gente que não comunga a mesma origem étnica, a mesma classe social, o mesmo nível cultural? A padronização do ‘estilo de vida’ de uma comunidade redunda em exclusão das pessoas que nela não se sentem em casa nem encontram espaço”, e o fez animar a comunidade cristã a “arriscar variedade, abrir suas portas e convidar à participação”. A perspectiva de Hall alimenta essa esperança. “As identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela. Isso implica o reconhecimento radicalmente perturbador de que é apenas por meio da relação com o Outro, da relação com aquilo que não é, com precisamente aquilo que falta, com aquilo que tem sido chamado de seu exterior constitutivo, que o significado ‘positivo’ de qualquer termo – e, assim, sua ‘identidade’ – pode ser construído”. A Conferência de Igualdade Racial não se propõe resolver os dilemas de um grupo humano, mas convidar a sociedade a revisitar o passado, saldar dívidas sociais e criar condições de convivência humana. Com o arcebispo Desmond Tutu e o presidente Nelson Mandela, a África do Sul superou o “apartheid” e criou a Comissão da Verdade, deixando essa lição às sociedades cristãs do mundo ocidental. * Teólogo luterano e jornalista, doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Extraído do site da Agência Latino americana e Caribenha de Comunicação http://alcnoticias.com |
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