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AS IGREJAS E A IGREJA:
POR QUE A ECLESIOLOGIA É IMPORTANTE?
Por mais estranha que a
palavra possa parecer à primeira vista para o público médio, a "eclesiologia"
está, na verdade, no centro da vida de todas as comunidades cristãs. As
respostas que as questões eclesiológicas obtêm nas igrejas influenciam a
vida cotidiana dos fiéis e definem o rumo da busca pela unidade cristã.
Jorge e Ana, jovem casal,
perguntam-se: "Deveríamos trazer nossa filha recém-nascida para ser
batizada? Ou deveríamos esperar e deixar que ela própria decida se quer
pertencer à igreja?"
Ruth vai com sua amiga
Irene à igreja desta. Ela não pode receber a Ceia do Senhor porque sua
igreja e a de Irene não estão em comunhão. "Estou confusa", diz ela. "Se
compartilhamos um batismo comum em cristo, por que não podemos receber
comunhão juntas?"
Esses cristãos talvez não
percebam, mas estão fazendo perguntas
eclesiológicas
- perguntas sobre o que a igreja
é
e para que ela
serve neste
mundo.
Dito de forma simples, a
eclesiologia
é a visão de uma igreja acerca de si própria, de como se organiza e como
cada igreja se relaciona com as outras e com o mundo. A eclesiologia
também está relacionada aos limites da igreja: quais são as crenças, ou
comportamentos, que colocam uma pessoa fora da igreja?
O movimento ecumênico se
baseia em convicções eclesiológicas: uma delas é que a unidade das
igrejas em Cristo é maior do que todas as diferenças de crença e todas
as tragédias históricas que as dividem. Outra é que Cristo deseja que
essa unidade seja visível e efetiva (João 17:20-21). Sendo assim, sempre
que houver divisões entre igrejas - quando não puderem realizar seus
cultos ou tomar a comunhão juntas, ou reconhecer os ministérios umas das
outras, quando seu testemunho comum e seu serviço no mundo forem
prejudicados - devem-se fazer perguntas eclesiológicas e apresentar
respostas eclesiológicas.
Um pouco de
história
Não surpreende muito,
portanto, que o movimento ecumênico tenha sido desafiado por questões de
eclesiologia desde seus primórdios.
Ao buscar uma base para sua
confissão, seu testemunho e seu serviço comuns, as igrejas praticaram
inicialmente uma "eclesiologia comparada". As convicções de cada igreja
eram apresentadas, e as semelhanças e diferenças, observadas como base
para entendimento mútuo.
Essa foi a base para a
Famosa "Declaração de Toronto" de 1950, que enfatizava o papel do
Conselho Mundial de Igrejas como um lugar em que eclesiologias
diferentes - até mesmo muito diferentes - podiam se encontrar para
desenvolver diálogo, além de missão e serviço cooperativos.
Com o tempo, houve uma
importante mudança, para um método de "convergência". As comparações
eclesiológicas foram estabelecidas na perspectiva não apenas de presente
e passado, mas também de futuro: as discussões agora se voltavam a
garantir que as igrejas, à medida que avançam para o futuro, chegassem
mais próximas umas das outras, ao invés de se afastar.
Para isso, era necessária
uma nova profundidade de diálogo. Não bastava mais observar diferenças
eclesiológicas - se o batismo infantil ou "adulto" era praticado, se as
mulheres podem ser ordenadas no ministério da palavra e sacramento.
Tornou-se necessário identificar o momento em que a diferença se torna
divisão,
apontar as causas desta divisão e trabalhar conjuntamente para
superá-las.
No limiar de uma
mudança radical
Perdemos de vista o quanto o
movimento ecumênico moderno é uma evolução radical: igrejas que têm
vivido e realizado seus cultos separadamente durante 150, 500 ou 1000
anos estão agora, cada vez mais e de forma irreversível, fazendo as
coisas juntas.
Isso afetou a forma como
muitas igrejas vêem a si próprias: como
parte
verdadeira do corpo de Cristo, completamente igrejas em si, mas
incompletas sem outras igrejas. Dessa forma, a
experiência
comum das igrejas se tornou parte da "matéria prima" para a eclesiologia.
Isso tem suas conseqüências!
Podemos estar agora no limiar de uma nova mudança, a mais dramática de
todas: rumo a uma eclesiologia - uma visão básica da igreja e sua missão
- desenvolvida pelas igrejas
juntas,
e não separadas.
Essa eclesiologia começaria,
em lugar de acabar, pelo fato de que as igrejas são uma em Cristo.
Basear-se-ia profundamente na experiência de cada igreja, mas também na
experiência ecumênica das igrejas em confessar, testemunhar, servir e
(onde for possível!) realizar cultos juntas, em lugar de separadas.
E desafiaria cada igreja a
questionar: nossa visão acerca de nós mesmos serve à unidade da igreja?
Quanto de nossa eclesiologia foi desenvolvido para justificar e manter
nossa separação de outras igrejas? Como podemos tornar a unidade que
temos mais visível e efetiva?
A 9a Assembléia do Conselho
Mundial de Igrejas em Porto Alegre, em fevereiro próximo, enfrentará o
desafio de uma declaração sobre eclesiologia. Produzida pela Comissão de
Fé e Ordem do CMI, ela tenta declarar, de forma concisa, mas
substancial, o que as igrejas podem dizer juntas sobre a igreja.
A declaração é apresentada
para ser adotada pela Assembléia, não como declaração "final" ou
definitiva sobre a igreja, mas como
base para reflexão
sobre o que liga as igrejas - e o que ameaça dividi-las.
Não é por acaso que ela se
chama "Um convite às igrejas", pois as conclama a um diálogo renovado e
mais profundo. Ela as conclama a
ser
uma igreja, a tornar visível, no Espírito, a unidade que lhes foi dada
por Deus em Cristo. E, sim, desafia a que tratem abertamente de suas
divisões, identifiquem-nas e trabalhem para superá-las.
Fazendo a coisa certa
Alguns anos atrás, ouvi uma
história que deixa claro por que a eclesiologia - como cada igreja vê a
si própria e sua relação com outras - é crucial para os cristãos, para
as igrejas e para o movimento ecumênico.
Era sobre uma senhora de
idade, membro de uma paróquia em Ghana, cuja aldeia foi alimentada pelo
padre de uma aldeia vizinha durante um período de escassez de alimentos.
Quando a escassez acabou, ela foi à aldeia vizinha para agradecer aos
moradores pelo que haviam feito.
Entretanto, quando foi à
igreja do padre para cumprimentá-lo e agradecer pessoalmente, não pôde
comungar porque suas respectivas igrejas não concordavam em alguns
pontos. Então a mulher foi até seu bispo e lhe fez a seguinte pergunta:
"Como é possível que
compartilhemos o alimento material que não nos deixa morrer de fome e
não o alimento espiritual que o próprio Cristo nos ofereceu? Acho que
quando Cristo voltar, ele próprio nos alimentará - e então fará o que é
certo!"
"Eclesiologia" diz respeito
às igrejas fazerem "o que é certo". Significa as igrejas
serem
"o que é certo", serem uma igreja, confessando, realizando cultos,
testemunhando e servindo juntas, com um só coração.
(*) Rev. Dr
Thomas F. Best,
pastor da Igreja Cristã (Discípulos de Cristo) dos Estados Unidos, é
diretor da Comissão de Fé e Ordem do CMI.
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