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JESUS, FILHO DE ABRAÃO
A. ABRAÃO NA BÍBLIA
ð Abrão: 66 em Gn; 1 em 1Cr; 1 em Ne. ð Abraão: 190 no AT. ð Pentateuco: 154 (136 em Gn; 9 em Ex; 1 em Lv; 1 em Nm; 7 em Dt). ð Históricos: 21 (2 em Js; 1 em 1Rs; 1 em 2Rs; 6 em 1Cr; 2 em 2 Cr; 1 em Ne; 2 em Tb; 1 em Dt; 2 em Est; 2 em 1Mc; 1 em 2Mc). ð Profetas: 9 ( 4 em Is; 1 em Jr; 1 em Br; 1 em Ez; 1 em Dn; 1 em Mq). ð Sapienciais: 6 (4 em Sl; 2 em Eclo).
ð De 279 nas Escrituras, 190 no AT e 89 no NT. ð Considerando que a extensão do AT é mais que o triplo do NT, há que se concluir que haja uma significativa presença do nome “Abraão” no NT. ð Evangelhos: 35 (7 em Mt; 1 em Mc; 16 em Lc; 11 em Jo). ð Atos: 12. ð Escritos Paulinos: 23 (13 em Rm; 1 em 2 Cor; 9 em Gl). ð Hebreus: 15. ð Cartas Católicas: 4 (3 em Tg; 1 em 1Pd).
ð Excetuando o grupo do Pentateuco (154), Abraão é citado 36 no resto do AT. Uma só vez a mais que os Evangelhos (35). Excetuando Mc, qualquer um dos outros Evangelhos cita Abraão mais vezes que qualquer outro livro do AT (excetuando Gn 136, e Ex 9). Mt sozinho (7) cita Abraão mais vezes que todos os Sapienciais (6). Lc (16) e Jô (11), cada um sozinho, citam mais vezes Abraão que todos os Profetas (9). ð Nos Evangelhos, temos 4 vezes mais que os Profetas (9); 6 vezes mais que os Sapienciais (6). ð Em Paulo (23), temos um pouco mais que os Históricos do AT (21). ð Em Hebreus, com Católicas (19), temos um número quase igual aos Históricos do AT (21). ð Em Atos (históricos do NT: 12), temos mais que a metade que os Históricos do AT (21).
ð Mt (7): autor (3); Jesus (2); João Batista (2). ð Mc (1): Jesus (1). ð Lc (16): Maria (1); Zacarias (1); João Batista (2); autor (1); Jesus (11). ð Jo (11): Judeus (5); Jesus (6). ð Total de vezes do nome “Abraão” na boca de Jesus nos Evangelhos: 20 (de 35).
B. ABRAÃO NA FÉ DOS CRISTÃOS SEGUNDO O NOVO TESTAMENTO
ð Mt 22,32; Mc 12,26; Lc 20,37: Com a expressão “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, citando Ex 3,6, o NT indica o Deus dos vivos, o Deus da ressurreição, o Deus que é fundamento da fé dos crentes.
ð Mt 1,1-17: A genealogia de Jesus em Mt, embora sublinhe influências do lado feminino (vv. 3.5.6), limita-se à ascendência israelita de Cristo. Tem por objetivo relaciona-lo com os principais depositários das promessas messiânicas, Abraão e Davi, e com os descendentes reais deste último (2Sm 7,1; Is 7,14). ð Lc 3,34: Remontando, além de Abraão, até Adão, a genealogia de Jesus em Lc tem um cunho mais universalista que a de Mt.
ð Mt 3,9; Lc 3,8: Se não for pela conversão, que é fruto maduro do arrependimento, não basta a descendência carnal de Abraão; é como apelar para a eleição, repetidas vezes declarada insuficiente (Jr 11,13-17). Se Abraão era a pedreira (Is 51,1-2) por dom divino, Deus pode utilizar outras pedras (em hebraico filhos e pedras fazem assonância: banim e ‘abanim).
ð Hb 6,13-20: Antes de qualquer lei e instituição cultual, encontramos “dois atos irrevogáveis”: a promessa e o juramento de Deus. Encontramos também duas figuras: Abraão e Melquisedec. Com isso, o autor quer salientar um ponto bem determinado: Deus se empenhou com o futuro e a salvação de todos os seres humanos, e esse futuro e essa salvação tornam-se realidades em Cristo. ð Hb 7,1-28: Melquisedec é figura misteriosa que entra na história de Abraão (Gn 14,17-20). E o Salmo 110,4 fala de um sacerdócio misterioso segundo a ordem de Melquisedec. São textos que anunciam o sacerdócio de Cristo, que é diferente do sacerdócio judaico, porque o torna superado. Na Bíblia, as grandes personagens são sempre mostradas com sua origem e genealogia. De Melquisedec, porém, não se fala nada a respeito de seus pais ou de seus descendentes. O autor serve-se disso para comparar Melquisedec com Cristo, o Filho de Deus. E vai mais adiante: Melquisedec não pertence a nenhuma família sacerdotal, mas oferece sacrifícios e recebe dízimos do grande patriarca Abraão. Isso leva à seguinte conclusão: Melquisedec é sacerdote, mas de modo muito maior que os sacerdotes judeus: não está ligado à classe sacerdotal dos descendetes de Levi, nem à descendência de Abraão. Por isso, seu sacerdócio é muito mais amplo, é universal. O sacerdócio de Jesus Cristo, prefigurado em Melquisedec, não se fundamenta na descendência de Levi, mas no juramento do próprio Deus. Jesus Cristo torna-se, assim, o mediador definitivo entre Deus e os seres humanos.
ð Jo 8,48-59: Abraão se alegrou com a promessa feita por Deus de que o futuro Messias iria sair da sua descendência (Gn 12,7; 15,2ss; Gl 3,16). Abraão viu o “dia” de Jesus (como Isaías viu a sua glória: 12,41), de longe (Hb 11,13; Nm 24,17), num acontecimento profético: o nascimento de Isaac, que provocou o riso de Abraão (Gn 17,17). Jesus se apresenta como o verdadeiro objeto da promessa feita a Abraão, a verdadeira causa da alegria, o Isaac espiritual (Gn 12,1). ð Hb 11,8: Ao lembrar a fé exemplar dos antepassados (Abel, Henoc, Noé, Abraão, Sara...), o autor lembra que a fé de Abraão motivou a partida para o desconhecido, a esperança do nascimento de Isaac, o sacrifício do filho único.
ð Lc 19,9: Apesar da profissão de cobrador de impostos, Zaqueu é filho de Abraão. Nenhum estado é incompatível com a salvação. A qualidade de filho de Abraão é que conferia aos judeus todos os privilégios (Lc 3,8; Rm 4,11s; Gl 3,7s). ð Rm 4,1-25: Abraão, nosso antepassado segundo a carne, foi justificado sem as obras da lei, ainda incircunciso; portanto, justificado somente pela fé. Certos livros na época de Paulo fazem de Abraão cumpridor da lei mosaica, e por isso reconhecido justo por Deus. Para Paulo, não é em nome de tal cumprimento fiel que ele foi reconhecido como justo; mas por ter acreditado na promessa divina, enquanto ainda era incircunciso e, portanto, um sem-Lei, um ímpio (cf. v.5). Abraão, antepassado dos judeus, é o exemplo da gratuidade da fé. Ele foi considerado justo, não por ter realizado obras, mas porque acreditou em Deus, como diz Davi no Salmo 32. Abraão foi justificado antes de ser circuncidado, e a circuncisão se tornou sinal externo da justiça que ele já tinha recebido através da fé. Com efeito, pode-se entender o v. 3 (Abraão creu em Deus, e isso lhe foi levado em conta de justiça) de diversos modos: a) em virtude da fé, Deus teve Abraão por justo, sem que o fosse na realidade; b) ou, então, em virtude dessa mesma fé, Deus conferiu gratuitamente a Abraão uma justiça que não tinha quando acreditava; c) ou, enfim, em face de Deus, e portanto na verdade, a fé se confunde concretamente com a justiça. Mas o conjunto da doutrina paulina exclui a primeira interpretação; parece excluir também a segunda e combina perfeitamente com a terceira. A herança de Abraão (seus descendentes) não lhe é dada para recompensar a fidelidade às cláusulas de um contrato (a uma lei), mas em cumprimento da promessa. Portanto, Abraão é pai de todos os que têm fé, tanto dos judeus como dos cristãos provenientes do paganismo. Em vista da justiça que vem da fé, Abraão recebeu gratuitamente de Deus a promessa de se tornar herdeiro do mundo. Ora, a promessa a Abraão permanece e é transmitida como herança aos seus descendentes. Todavia, os autênticos descendentes e herdeiros são aqueles que Deus justifica através da fé, como fez com Abraão, e não os que se limitam a observar a Lei. Ter fé e entregar a própria vida a Deus é esperar contra toda esperança. Abraão acreditou que ia ser pai quando sua velhice e a esterilidade de Sara diziam o contrário. A justiça de Abraão é a fé confiante de que Deus pode realizar tudo o que promete. Nós também somos justificados por Deus quando acreditamos que ele ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos, para nos livrar da morte do pecado e nos dar a vida nova. Por isso, visto que as promessas de Deus a Abraão foram oferecidas à fé, sua realização só pode ser percebida e acolhida pela fé na pessoa e na obra de Jesus Salvador. ð Gl 3,6-29: Os pregadores judeu-cristãos diziam aos gálatas que Jesus era judeu e filho de Abraão; por isso os gálatas deveriam ser circuncidados e observar a Lei judaica, para serem filhos de Abraão e fiéis a Jesus Cristo. Contudo, Paulo salienta que, desde Abraão, a fé nas promessas é que dá a vida. A tese de Paulo pode enunciar-se assim: é unicamente pela fé que o homem é justificado e se torna filho de Abraão. Quem tem fé se torna filho e herdeiro de Abraão. A filiação abraâmica não existe pelo fato de alguém ser judeu, submetido à Lei, pois a Lei é incapaz, por seu papel e natureza, de garantir tal filiação. A Lei, com efeito, supõe uma prática, e uma prática total, que ela, por si mesma, não é capaz de assegurar. Ao invés de tornar justo o homem, a Lei traz maldição para os que não a cumprem. Era a Cristo que se dirigia a promessa (v. 16). Portanto, submetendo-se à maldição da Lei pela morte na cruz, ele resgatou-nos pela fé e estendeu a todos os povos a bênção de Abraão. A filiação abraâmica se funda na promessa incondicional de Deus feita aos pais. Deus se contradiria se a Lei não deixasse intacta a gratuidade da promessa. O testamento ou aliança de Deus, no qual estão contidas as promessas feitas a Abraão e ao seu descendente, não pode ser anulado pela Lei, pois esta veio depois das promessas. O “descendente” de que fala a Escritura é uma só pessoa, que só pode ser o Cristo. Em Cristo, portanto, nós somos herdeiros de uma promessa que foi feita diretamente a Abraão, e não através da Lei, cujo papel de pedagogo (vigiar, admoestar e castigar...) terminou com a chegada de Cristo. A descendência de Abraão é constituída, agora, pelos filhos de Deus, que crêem em Cristo Jesus e lhe pertencem, não mais por uma posteridade segundo a carne. Pela fé em Cristo e pelo batismo, os fiéis se revestem de Cristo, isto é, são transformados para se tornarem imagem dele. Em Cristo, os fiéis ficam libertos de qualquer lei e de qualquer diferença que possa privilegiar uns e marginalizar outros. ð Gl 4,21-31: Paulo se serve das histórias de Agar e Sara (Gn 16,1-16; 21,8-21) para fazer a comparação entre a antiga e a nova aliança. O filho que Abraão teve com Agar, “de modo natural”, é escravo e simboliza os que estão sob a Lei. O filho que Abraão teve com Sara, “por causa da promessa”, é livre como aqueles que nasceram do Espírito através da fé em Jesus. ð Tg 2,21-23: Fiel à tradição judaica, que considerava Abraão como o justo fiel a Deus (Eclo 44,19-21), amigo de Deus (2Cr 20,7; Is 41,8) e pai dos que crêem (Mt 3,8; Jo 8,39), Tiago também, como Paulo (Rm 4,1.16), considera a fé de Abraão. Ele, como tampouco Paulo, não considera a fé do patriarca Abraão como uma obra, mas insiste mais do que Paulo nas obras que nascem da fé, da lei perfeita. Aparentemente, Paulo e Tiago tiram conclusões opostas, ao usar o exemplo da fé e das obras de Abraão. Note-se, porém: Paulo diz que Abraão se tornou justo por meio da fé, e não mediante a prática da Lei. Tiago diz mais: a fé que justificou Abraão é uma realidade que se traduz na prática de atos concretos. Ao falar da prática da Lei, Paulo afirma que nenhuma observância de regras pode levar à salvação, e que a fé é o princípio de toda a vida cristã. Tiago, por sua vez, salienta que a fé se traduz no amor, e este realiza atos concretos. Paulo diz a mesma coisa: “a fé opera pela caridade” (Gl 5,6).
ð Lc 16,19-31: A expressão judaica “seio de Abraão” (v. 22) corresponde à antiga locução bíblica “reunir-se aos pais”, ié, aos patriarcas (Jz 2,10; Gn 15,15; 47,30; Dt 31,16). A imagem exprime intimidade (Jo 1,18) e proximidade com Abraão no banquete messiânico (Jo 13,23; Mt 8,11).
C. ABRAÃO NOS ÚLTIMOS DOCUMENTOS DA IGREJA
ð DV 3: Pai de um grande povo (ao falar da preparação evangélica). ð LG 42; NA 3: A profissão da fé de Abraão e sua submissão a Deus no exemplo de Abraão é fundamento para a relação da Igreja com os muçulmanos.
ð 21 referências complexivas, que fundamentam a doutrina cristã sobre o credo, a liturgia e a oração. Esse grande número de referências a Abraão se justifica pela preocupação do Catecismo em referir-se sempre às Escrituras. ð 59-60: Deus elege Abraão. ð 61: Israel é o povo dos “irmãos mais velhos” na fé de Abraão. ð 144-147: Abraão é o pai de todos os crentes, modelo de obediência da fé (citando Hb 11 e Rom 4). ð 165: Abraão é, como Maria, uma das testemunhas da fé, às quais devemos voltar-nos nos momentos difíceis. ð 332: Os anjos seguram a mão de Abraão. ð 422: Deus cumpre, com o envio do descendente Cristo, as promessas feitas a Abraão. ð 527: A circuncisão de Jesus é sinal de sua inserção na descendência de Abraão., no povo da Aliança, da sua submissão à Lei, e da sua capacitação para o culto de Israel. ð 590: Abraão serve de referência para Jesus argumentar sua divindade: “Antes que Abraão fosse, Eu Sou” (Jo 8,58). ð 633: Referência ao seio de Abraão (Lc 16,22-26), a morada e estado dos mortos, maus ou justos, que estão à espera do Redentor. ð 705-706: Referência à promessa feita a Abraão, cumprida no envio do Filho e do Espírito da promessa. ð 762: Preparação longínqua da Igreja na vocação de Abraão. ð 841: Relações da Igreja com os muçulmanos que, professando manter a fé de Abraão, adoram o Deus único, misericordioso e juiz (citando LG 16 e NA 3). ð 1080: A bênção divina penetra a história da humanidade, para que ela retorne à vida (falando do Pai como fonte e fim da liturgia cristã). ð 1221-1222: Memória da travessia do Mar Vermelho pelos filhos de Abraão e da entrada na terra prometida à descendência de Abraão (duas, entre tantas outras, prefigurações do batismo cristão). ð 1541: Deus escolheu um povo santo, descendente de Abraão, dando-lhe chefes e sacerdotes (uma das prefigurações do sacerdócio cristão). ð 1716: Nas bem-aventuranças, Jesus retoma as promessas feitas ao povo eleito desde Abraão. ð 1819: A esperança de Abraão é origem e modelo da esperança cristã (citando Rm 4,18). ð 2569-2570: A oração de Abraão é início e modelo da oração cristã. ð 2635: Desde Abraão, interceder é próprio do crente em Deus. ð 2676: Maria é comparada a Abraão como fonte de bênçãos para as gerações futuras. ð 2810: O juramento de Deus e a promessa feita a Abraão, antes mesmo de Deus revelar seu santo Nome.
Pe. Dr. Vitor Galdino Feller Curso “A fé dos filhos de Abraão – judaísmo, cristianismo e islamismo” ITESC, Florianópolis, 09-11 de junho de 2006.
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