CIDADANIA, DIACONIA E JUVENTUDE

Wanda Deifelt*

 

Há uma história bastante conhecida que serve para ilustrar a relação entre cidadania, diaconia e juventude. Conta-se que havia, em um povoado da antiga China, um homem muito sábio. Um menino, querendo testá-lo para ver se ele era realmente sábio, capturou um filhote de passarinho e o prendeu entre as duas mãos. Assim pensou: "Vou perguntar ao sábio se o pássaro está vivo ou morto. Se ele disser que está morto, abro as mãos e o deixo voar, mostrando que o pássaro está vivo e que o sábio estava enganado. Se ele disser que o pássaro está vivo, esmago-o com meus dedos e, também assim, mostro que o sábio estava enganado." Feliz com o seu plano, o menino correu em direção ao sábio e lhe fez a pergunta, como havia planejado. Mas o sábio respondeu: "Está em suas mãos." "Como assim?", perguntou o menino. "Se o pássaro está vivo ou morto está em suas mãos. Se eu disser que ele está vivo, você o matará para provar o meu erro. Se eu disser que está morto, você o deixará voar, novamente para mostrar meu erro. Assim, a vida do pássaro depende de você, e não do que eu disser."

A pergunta pelo papel da juventude diante dos desafios e das perspectivas que a cidadania e a diaconia apresentam é o tema desta palestra. Ela evidencia a constatação, feita pelos próprios jovens, que em suas mãos está um grande poder, o de dizer sim à vida e não à morte. Os jovens se reconhecem como participantes da sociedade hoje e, como jovens, assumem um compromisso de transformação social. Mas como fazer isto dentro e a partir da Igreja? Proponho desenvolver minha reflexão bíblica, teológica e eclesiológica sobre o tema proposto analisando os temas cidadania e diaconia separadamente para, no fim, apresentar quais são os desafios atuais para a construção de uma cidadania plena e inclusiva. Esta última parte reflete também a conversa que os próprios jovens desenvolveram em plenária.

Cidadania: um conceito antigo

Ser cidadão ou cidadã é usufruir dos direitos e participar dos deveres de uma determinada sociedade. O conceito de cidadania foi estabelecido já na Antigüidade, quando filósofos como Platão, no Séc. V a.C., desenvolveram seu raciocínio sobre o Estado (penso particularmente na sua obra sobre a República). Neste contexto, a noção de cidadania estava associada a fazer o bem público, onde o Estado está à serviço da coletividade, mas com limitações bastante específicas sobre quem exerce o poder. Neste período, cidadãos eram somente os homens livres, proprietários. Eram excluídos da cidadania as mulheres, as crianças, os escravos e as escravas. Os jovens (somente os homens) tinham cidadania na medida em que eram vistos como futuros cidadãos, mas também estes se colocavam sob o poder do patriarca. Considerando-se que expectativa de vida das pessoas era relativamente baixa, este período de preparo para a cidadania masculina era breve.

Dentro do sistema patriarcal o pater familias tinha poder de vida e morte sobre todas as pessoas que estavam sob seu domínio: esposa (ou esposas), filhos e filhas, escravos e escravas, animais e propriedades. Nisto consistiam suas posses. Não é surpreendente, tanto dentro da mitologia como da história greco-romana (de onde aliás deriva em grande parte nossa cultura ocidental) o número de jovens que assassinam seus pais, tentando usurpar o seu poder. Dentro do sistema patriarcal, o jovem somente poderia ser cidadão quando o pater familias já não estava, e ele próprio podia assumir o lugar do adulto, como o novo pater familias. Este assunto serviu como base para muitas reflexões. Cidadania, na Antigüidade, era privilégio de alguns que utilizavam seu poder cidadão para assegurar as benesses que o poder público lhes garantia. Estavam excluídos da cidadania todas as pessoas que eram consideradas inferiores socialmente: estrangeiros, escravos e escravas, mulheres, crianças e jovens.

O conceito de cidadania, dentro do âmbito secular, só foi questionado mais de 20 séculos depois de Platão. Foi durante a Revolução Francesa, com sua bandeira da igualdade, liberdade e fraternidade, que a cidadania se expandiu, em parte, para os segmentos da população que não eram senhores proprietários. Mas chama atenção que também na Revolução Francesa algumas pessoas eram consideradas mais cidadãs do que outras. A cidadania se estendia somente aos homens, não às mulheres. É claro que havia muitas mulheres (e homens em solidariedade às mulheres) que reivindicavam que também elas deveriam ter acesso ao poder público. Em uma retrospectiva histórica, feita especialmente por historiadoras feministas sobre a questão da cidadania, percebe-se que os líderes da Revolução Francesa repetiam os mesmos argumentos utilizados no período grego: as mulheres deveriam se ater ao mundo doméstico por terem uma natureza feminina, que as prepara para a maternidade, o cuidado da casa, o cuidado do marido e dos filhos. A fragilidade física e mental das mulheres não as equiparia ao exercício do poder. Repetia-se a mesma argumentação dualista grega: os homens são providos de razão, cultura, força física e superioridade mental; as mulheres são caracterizadas pela paixão, sensibilidade, fraqueza física e incapacidade mental.

É importante reconhecer que a cidadania para as mulheres só foi alcançada através do movimento sufragista (que iniciou no século XVIII e se estendeu até o século XX), o precursor do movimento feminista. O movimento sufragista teve na inglesa Mary Woolstonecraft uma de suas primeiras pensadoras (ela escreveu um manifesto, em 1796, intitulado "Reivindicação dos direitos das mulheres"). O direito à educação, ao voto e à propriedade eram as demandas colocadas por este movimento. Na maioria dos países, estas reivindicações só se tornaram realidade no século XX, que é considerado, na história da humanidade, como grande século das mulheres devido aos avanços reais que as mulheres tiveram no acesso à cidadania. No entanto, a realidade das mulheres em muitas partes do globo (pensando nas mulheres do Afeganistão que vivem sob o regime Taliban, ou das mulheres na África, que sofrem mutilação genital, ou ainda das mulheres no Brasil, que sofrem por causa da violência doméstica e do turismo sexual) relativiza estes avanços porque, na verdade, a cidadania para as mulheres continua sendo privilégio de um grupo relativamente pequeno.

Considerações bíblico-teológicas sobre cidadania

A menção da cidadania na Bíblia não pode deixar de passar pela prática de Jesus. Por dois motivos: Primeiro, porque ele desmascara as relações hierárquicas de poder que existem em grande medida, mantidas pelo próprio poder religioso. Jesus nos mostra que a religião nem sempre é libertadora, mesmo que dentro desta religião haja elementos afirmadores de humanidade plena. Não quero ser mal entendida, com este comentário, que Jesus seja contra o Judaísmo. Pelo contrário: Jesus era judeu (e não cristão como muita gente pensa) e sua mensagem parte justamente deste reservatório de sentido para retornar a ele, transformando-o. Em segundo lugar, porque ele faz a ponte entre um discurso religioso e uma prática social. A cidadania se dá na compreensão do Reino de Deus, mas esta proposta já é experimentada concretamente (como antecipação da novidade do Reino) entre nós hoje.

A prática de Jesus é uma prática acolhedora. Todas as pessoas que entram em contato, diálogo ou disputa saem do encontro transformados. Nisto consiste o diálogo autêntico: no encontro com o outro ou a outra, o sujeito se transforma porque passa a ter uma nova compreensão de si mesmo, do mundo e de seu papel no mundo. É claro que nem sempre Jesus é capaz de transformar a mentalidade de seus interlocutores (entre estes, por exemplo, alguns fariseus), mas ele deixa um exemplo muito interessante de como lidar com pessoas que tem opinião diferente da dele. Ele não relativiza o argumento de seus opositores (sempre o leva em sério), mas busca desafiar para uma reflexão crítica a partir do universo de experiências e conhecimentos que estes interlocutores têm. Às vezes Jesus mesmo sai transformado deste encontro: ele muda de opinião sobre o seu próprio ministério, através do seu diálogo com a mulher síro-fenícia. Ela lhe pede que cure a filha doente, ele retruca que não veio para os gentios e que não pode dar a comida das crianças aos cachorrinhos. Ela contesta dizendo que até os cachorrinhos comem as migalhas da mesa. Jesus se comove com ela, muda de opinião e cura a filha enferma.

A estrutura social do tempo de Jesus era extremamente excludente. De certa maneira pode-se dizer que ela fazia uma síntese entre as práticas do Levítico (que estipula as leis de pureza e impureza) e a cultura romana (que exercia o domínio econômico, militar e cultural da época). Neste contexto, a prática de Jesus representa um movimento contra-cultural, mas baseado na tradição profética que caracteriza a teologia bíblica. Assim, a sua aceitação de pessoas pecadoras, marginalizadas na sociedade, publicanos, prostitutas, enfermos, pobres (Mc 2.15, Mt 5.45) representa uma reviravolta para os padrões de sua época. Não é de se surpreender que, assim como hoje, a multidão o seguia. Jesus cura, ensina, perdoa, alimenta, faz festa, dialoga com pessoas de reputação questionável, pessoas simples, mas também com pessoas que tem prestígio. Pode-se dizer que Jesus afirma a cidadania plena tanto no Reino de Deus como no presente, pois todas pessoas que entram em contato com ele são tratadas com dignidade e respeito.

Muitas vezes, no entanto, as próprias pessoas que o procuravam não tinham consciência plena de suas próprias capacidades e potencialidades. Jesus aponta para esta capacidade do ser humano superar-se ("vai e não peques mais"). Muitas vezes Jesus é procurado porque as pessoas querem ser curadas, ouvidas, reerguidas, mas não têm uma visão, um projeto para si depois disto acontecer. Exemplo disto é a mulher que fala a Jesus, do meio da multidão (Lc 11.27-28). As palavras de Jesus, em sua pregação, foram tão impactantes que a mulher, ao abrir a boca para falar, quebra dois tabus sociais. Ela não respeita a ordem que mulheres não deveriam falar em público e, em segundo lugar, que ela não deveria dirigir-se a um homem. Jesus não a recrimina por sua audácia e coragem. A mulher, quando fala, diz: "Bem-aventurado é o ventre que te gerou e os seios que te amamentaram." A mulher poderia ter comentado acerca do papel que a mãe de Jesus teve na sua formação, ou no orgulho que uma mãe sente quando o seu filho segue o que ela havia profetizado no Magnificat, o hino de Maria, onde ela fala teologicamente acerca de um Deus solidário com os pobres e sofridos deste mundo. A mulher da multidão reduz a mulher a útero e seios, à função de reprodutora. Aqui se percebe como Jesus muitas vezes vai mais longe e é mais audacioso em sua proposta (também para as mulheres). Ele retruca: "Antes bem-aventurados são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a guardam (ou praticam, de acordo com o paralelo que está em Lc 8.21). Em outras palavras, Jesus dá a ela a chance de se superar, de sair daquele espaço que a religião e a cultura reservaram para ela e de almejar mais, de sonhar mais alto. Ele lhe dá a oportunidade de ser discípula, pois escutar, guardar, praticar a Palavra de Deus é uma descrição do que consiste o seguimento a Jesus.

De modo especial destaco o dom de Jesus em incluir as pessoas outra vez no convívio da comunidade. Suas curas não são feitas para ostentar seu poder, mas para restituir a dignidade humana às pessoas que antes estavam fora do convívio da sociedade (lepra, hemorragia, possessão de demônios, etc.). A dimensão da integração é um elemento forte na práxis libertadora de Jesus. Creio que nisto consiste a dimensão cidadã da proposta de Jesus: na inclusão dos excluídos. Quando Jesus cura a mulher recurva e lhe diz para erguer-se, retorna a ela o título de "Filha de Abraão". A cura permite a restituição da dignidade. A pergunta que para mim fica em aberto é se nós, que não temos o poder de Jesus de curar e fazer milagres, reconhecemos quem é portador de deficiências físicas e mentais como filhos e filhas de Abraão? Em que medida nosso testemunho como Igreja de Cristo restitui a dignidade e inclui as pessoas socialmente excluídas?

Esta dimensão da inclusão é atestada pelas primeiras comunidades na fórmula de batismo que Paulo anotou em Gálatas 3.27-28: "Mediante o batismo já não há mais judeu nem grego, escravo nem livre, homem e mulher, porque sois um em Cristo Jesus". A Igreja é o corpo de Cristo (1 Coríntios 12), o lugar onde todos seus membros são igualmente importantes. A comunidade se compromete, mediante o batismo, a continuar a prática de inclusão iniciada em Jesus. Mesmo que a sociedade discrimine e dê menos valor às pessoas, baseada em preconceitos de raça ou etnia, de gênero, de classe, de nacionalidade, na Igreja não será assim. Na comunidade todas pessoas serão tratadas de modo igual. É a isto que o batismo compromete. Muito mais do que uma formalidade litúrgica, o batismo é um compromisso de testemunho. Assumir-se como cristão e cristã é comprometer-se com a inclusão. Por isto, não há nada mais contraditório do que a igreja que fecha suas portas para pessoas que são consideradas "diferentes" pelos padrões da cultura e da sociedade. Quando a igreja segue os valores deste mundo, ela perde sua voz profética. Pior, ela esquece seu amor primeiro, que é Jesus, e se acomoda aos padrões discriminatórios, excludentes, hierárquicos. Como diz a poetisa mineira Adélia Prado, a Igreja tem mais pecado do que todo o mundo junto. Isto não se pode negar. Mas ainda assim ela tem uma tarefa a cumprir, ela guarda a memória do povo de Deus e serve de instrumento para a propagação do Evangelho.

Diaconia: um compromisso a serviço da vida

Na linguagem bíblica, a cidadania se traduz na concepção de que cada criatura é especial diante dos olhos de Deus. Deus nos criou de acordo com sua imagem, nos sustenta e mantém. A vontade de Deus, expressa nas palavras de Jesus, é que tenhamos vida, e a tenhamos superlativamente: em abundância. Deus nos dá vida para a nossa felicidade e para tornar felizes as pessoas e o mundo que nos cerca. Este princípio da dignidade da vida está presente da primeira à última página da Bíblia, exigindo, muitas vezes, palavras e gestos contundentes de profecia (denúncia de injustiças e anúncio de uma nova realidade). Deus nos criou, e cada uma de sua criaturas é feita à sua imagem. Vocês já se deram conta do que isto realmente significa? Isto quer dizer que cada pessoa, cada criatura, deve ser tratada como imagem de Deus. Se eu olho uma pessoa nos olhos, vejo refletida nela a imagem de Deus, e devo tratá-la com o respeito e a dignidade que ela merece. Talvez seja por isto que para nós, seres humanos, seja tão difícil encarar-nos mutuamente com os olhos. Desviamos o olhar porque sentimos culpa, medo, fragilidade, porque muitas vezes não nos sentimos à altura das expectativas que nós mesmos nos colocamos. Outras vezes queremos evitar o olhar, especialmente aqueles olhares de sofrimento, súplica e dor porque sabemos que seremos afetados por estes olhares pedintes. Eles nos comovem. Então, é mais fácil olhar em outra direção, manter-se ensimesmado. Outras vezes, ainda, compensamos nossa insegurança com falsa arrogância, crendo que olhando outros de cima para baixo convenceremos a nós mesmos (e aos demais) que somos auto-confiantes, capazes e imunes à dor (inclusive a nossa própria dor).

O modelo de diaconia (serviço) instaurado por Jesus se encontra pautado em Mc 10. 42-44, onde Jesus afirma que, contrário à maneira como se dá o poder e se tomam decisões no mundo, "entre vós não será assim: pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será este o que vos sirva. E quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos." Diaconia é o serviço prestado em benefício da outra pessoa. Neste conceito de Jesus está uma oposição ferrenha ao modelo de poder caracterizado pela filosofia grega. Entre os gregos (e consequentemente também entre os romanos) o ideal era ser livre e autônomo e não depender de ninguém. Assim, Jesus inverte duas polaridades. Por um lado, ele afirma que poder se dá no serviço, ou seja, que na concepção cristã a autoridade tem o dever de servir aos demais (algo que só mais tarde foi desenvolvido no conceito político de democracia). Governantes, de acordo com a lógica do mundo, são os que exercem domínio. Por isto Jesus provoca: líderes são os que servem, não os que dominam e intimidam. Por outro lado, Jesus também inverte o pensamento grego (de autonomia e auto-suficiência) quando reconhece que seres humanos necessitam uns dos outros. Diaconia é ir ao encontro das pessoas que necessitam de ajuda.

No Novo Testamento, o termo diakonein pode ser traduzido tanto por serviço como por ministério, cargo ou função. É interessante identificar que muitos teólogos fazem interpretações discriminatórias quando o termo é utilizado, atribuindo especialmente às mulheres a parte do serviço e aos homens a parte do ministério. É flagrante observar como o mesmo termo é interpretado de modo diferente. Em Romanos 1.1 o termo se refere a Paulo e em Romanos 16.1 a Febe. Na pesquisa sobre diaconia na Bíblia descobre-se que ambos, Paulo e Febe, são descritos como diáconos, mas Paulo é reverenciado pelos intérpretes pelo seu papel evangelizador e pregador, enquanto Febe é freqüentemente presumida como ajudante de Paulo, facilitadora de seu trabalho. Romanos 16.1ss nos apresenta Febe, uma mulher que é diácona, líder da igreja de Cencréia, escolhida para representar a comunidade em Roma e que é reconhecida como protetora de Paulo. Para não cair em interpretações discriminatórias, é importante reconhecer que tanto homens como mulheres exercem diaconia, seja no serviço voluntário prestado à comunidade, seja através de ministérios específicos designados pela Igreja.

Em muitos sentidos o termo diakonein (servir) foi desprestigiado a partir da interpretação que se faz de Lucas 10.38-42. Nesta passagem, Marta e Maria recebem Jesus em sua casa. Maria senta-se aos pés de Jesus -- numa atitude típica de discípula -- enquanto Marta serve à mesa. A pergunta de Marta "Senhor, não te importas de que minha irmã tenha deixado que eu fique a servir sozinha?" (v.40) parece contrapor o ensino/aprendizagem e o serviço/diaconia. A resposta de Jesus, que Maria escolheu a melhor parte e que esta não lhe será tirada, parece dar mais importância à palavra do que ao serviço. Mas a interpretação bíblica de Elisabeth Schüssler Fiorenza nos ajuda a melhor entender esta tensão que já estava presente na comunidade para a qual o evangelista escreve. Na memória do evangelista, Marta era uma líder que exercia discipulado. Era em sua casa que a comunidade se reunia. Como dona da casa, ela era responsável pelo serviço à mesa que incluía a celebração eucarística. O serviço à mesa é, então, parte de um ministério mais amplo, que abrange a preocupação social e a reflexão teológica. Esta tensão entre a "melhor parte" da qual o Jesus de Lucas fala reflete que já havia na comunidade um conflito de interesses sobre qual o papel que a diaconia tinha dentro dela. Neste sentido a música Diaconia, de autoria de Rodolfo Gaede Neto e Erli Manske, recupera esta dimensão dupla da diaconia que envolve tanto o anúncio quanto a vivência do Evangelho, na proposta da diaconia como Marta-Maria. As duas dimensões são imprescindíveis: o serviço e o anúncio.

Diaconia, no sentido bíblico, é empenhar-se em favor da vida, daquela vida abundante propagada por Jesus. É por isto que os termos diaconia e cidadania estão intimamente ligados. Um sem o outro não subsistem dentro da concepção cristã. A pergunta que guia a diaconia é: o serviço leva à formação cidadã ou leva à dependência? O objetivo da diaconia é a dignidade humana, a restituição da humanidade plena, o reconhecimento do potencial criativo e criador que está em cada ser humano. Por isto diaconia é o serviço que promove empoderamento, a cidadania da pessoa que é servida pela Igreja. Em contrapartida, a cidadania sem diaconia só se volta para os direitos do indivíduo, facilmente esquecendo os valores da dignidade, solidariedade e justiça para outros (e não só para si).

E a juventude?

Um dos assuntos que quero tratar neste segmento é o da cidadania eclesial. Quantos jovens se sentem realmente cidadãos dentro de suas denominações religiosas? Ou seja, pergunto se aquilo que os jovens dizem, fazem e propõem é levado em consideração pelo todo da Igreja. A sociedade civil assegura que um jovem pode votar a partir dos 16 anos de idade, que a sua opinião é valorizada e considerada democraticamente para decidir desde a escolha de líderes políticos até a elaboração de políticas públicas. Com relação às igrejas, qual é o papel que os jovens desempenham? As iniciativas diaconais apresentadas durante a Feira mostraram o envolvimento dos jovens em trabalhos socias, de assistência, prestação de serviços, evangelizacão e missão nas diferentes igrejas. Este é um testemunho dado tanto pelos jovens como pelas suas igrejas, que os dons e talentos de sua membresia jovem podem ser criativamente empregados.

É motivo de alegria constatar que os jovens fazem parte do cotidiano das comunidades, que grupos de jovens fazem teatro, arte, dança, música e poesia, trabalham com crianças de rua e crianças das próprias igrejas, emprestam o seu tempo e talento a projetos já organizados e em andamento (visitação a pessoas doentes, ancionatos, serviços de saúde), lideram e participam de cursos bíblicos, ou simplesmente se reúnem, como jovens, para estar com gente de sua idade para discutir seus próprios assuntos. Atos 5.1-11 mostra como os jovens participavam da vida comunitária na igreja antiga, executando tarefas simples mas necessárias (em At 5.6, 10, os jovens são chamados para enterrar os mortos). Também na comunidade cristã atual, os trabalhos que os jovens fazem são necessários e lidam com o cotidiano. Muitas vezes são atividades voltadas para outros jovens. Quem melhor do que o próprio jovem para saber quais necessidades devem ser atendidas?

Algumas vezes, no entanto, a capacidade, energia e criatividade da juventude deixam de ser utilizadas nas igrejas por preconceito, ou seja, que ser jovem significa não ter responsabilidade e não levar as coisas à sério. Deus não fazia a menor distinção quanto à idade. No texto da vocação de Jeremias (Jr 1.4-10), é o próprio Jeremias quem usa a sua juventude como desculpa para não atender o chamado de Deus. É Jeremias quem diz ser muito jovem, sem experiência, incapaz de falar. Deus, então, precisa convencê-lo a superar o seu próprio medo e o preconceito que tem para consigo. Deus o chama para ser profeta -- denunciando as injustiças e desigualdades, anunciando uma nova realidade – e se compromete a estar sempre com ele. Na história do povo de Deus, muitas mulheres e homens foram chamados ao mesmo ministério. Talvez a voz da juventude seja a voz profética que nós precisamos hoje. Jovens, como Jeremias, oferecem um olhar que é ao mesmo tempo crítico e cheio de possibilidades. Se as igejas não reconhecem este potencial trazido pelos jovens às igrejas, estamos desperdiçando os dons e talentos que Deus oferece.

Dentro de uma perspectiva crítica, lembro-me do texto de Atos 20.7-12, quando o apóstolo Paulo está pregando e um jovem, que o escutava sentado na janela, adormece e cai de uma altura equivalente a três andares. O rapaz sobrevive, mas deixa um questionamento (não escrito no texto bíblico, naturalmente) sobre o método de trabalhar com jovens hoje. Paulo pregava e, estendendo-se na sua pregação, fez com que o jovem adormecesse e caisse. Em que medida o jeito com que as igrejas trabalham com jovens leva a um sono profundo, ao invés de uma participação ativa na vida da comunidade de fé? As igrejas permitem aos jovens um jeito próprio de trabalhar, de decidir as prioridades, de desenvolver seus projetos? As diferentes barracas na Feira da Juventude mostraram que os jovens desenvolvem trabalhos criativos, engajados, celebrativos, ecumênicos, participativos e cheios de vida. O jeito convencional não é o único, e às vezes as igrejas precisam assumir o risco de ensaiar coisas novas.

Por fim, fica a pergunta aos próprios jovens, sobre seu compromisso com a transformação da igreja e da sociedade. Percebo que os jovens das igrejas estão preocupados com os assuntos atuais: a pandemia da Aids, a corrupção do governo, o fosso social que separa ricos e pobres, a violência generalizada, os perigos das drogas, a prostituição infantil, a manipulação dos meios de comunicação, para mencionar apenas alguns tópicos. Percebo que os jovens nem sempre encontram nas igrejas um espaço para articular sua insatisfação e tampouco encontram nelas o estímulo (ou os recursos) para entender melhor e mais criticamente a realidade que nos cerca. No entanto, é possível superar estas dificuldades através de contato com grupos de jovens de outras comunidades, outras igrejas, ou até mesmo organizações fora das igrejas, procurando saber como é possível um engajamento diaconal em prol da vida, como ser cidadão e cidadã da Igreja e do mundo, como possibilitar a cidadania através da diaconia. Às vezes é necessário inventar redes alternativas para criar uma sociedade mais participativa.