CIDADANIA, DIACONIA E JUVENTUDE
Wanda Deifelt*
Há uma história
bastante conhecida que serve para ilustrar a relação entre cidadania, diaconia
e juventude. Conta-se que havia, em um povoado da antiga China, um homem muito
sábio. Um menino, querendo testá-lo para ver se ele era realmente sábio,
capturou um filhote de passarinho e o prendeu entre as duas mãos. Assim pensou:
"Vou perguntar ao sábio se o pássaro está vivo ou morto. Se ele disser que
está morto, abro as mãos e o deixo voar, mostrando que o pássaro está vivo e
que o sábio estava enganado. Se ele disser que o pássaro está vivo, esmago-o
com meus dedos e, também assim, mostro que o sábio estava enganado." Feliz
com o seu plano, o menino correu em direção ao sábio e lhe fez a pergunta, como
havia planejado. Mas o sábio respondeu: "Está em suas mãos."
"Como assim?", perguntou o menino. "Se o pássaro está vivo ou
morto está em suas mãos. Se eu disser que ele está vivo, você o matará para
provar o meu erro. Se eu disser que está morto, você o deixará voar, novamente
para mostrar meu erro. Assim, a vida do pássaro depende de você, e não do que
eu disser."
A pergunta pelo
papel da juventude diante dos desafios e das perspectivas que a cidadania e a
diaconia apresentam é o tema desta palestra. Ela evidencia a constatação, feita
pelos próprios jovens, que em suas mãos está um grande poder, o de dizer sim à
vida e não à morte. Os jovens se reconhecem como participantes da sociedade
hoje e, como jovens, assumem um compromisso de transformação social. Mas como fazer
isto dentro e a partir da Igreja? Proponho desenvolver minha reflexão bíblica,
teológica e eclesiológica sobre o tema proposto analisando os temas cidadania
e diaconia separadamente para, no fim, apresentar quais são os desafios
atuais para a construção de uma cidadania plena e inclusiva. Esta última parte
reflete também a conversa que os próprios jovens desenvolveram em plenária.
Cidadania: um conceito antigo
Ser cidadão ou
cidadã é usufruir dos direitos e participar dos deveres de uma determinada sociedade.
O conceito de cidadania foi estabelecido já na Antigüidade, quando filósofos
como Platão, no Séc. V a.C., desenvolveram seu raciocínio sobre o Estado (penso
particularmente na sua obra sobre a República). Neste contexto, a noção de
cidadania estava associada a fazer o bem público, onde o Estado está à serviço
da coletividade, mas com limitações bastante específicas sobre quem exerce o
poder. Neste período, cidadãos eram somente os homens livres, proprietários.
Eram excluídos da cidadania as mulheres, as crianças, os escravos e as
escravas. Os jovens (somente os homens) tinham cidadania na medida em que eram
vistos como futuros cidadãos, mas também estes se colocavam sob o poder do
patriarca. Considerando-se que expectativa de vida das pessoas era relativamente
baixa, este período de preparo para a cidadania masculina era breve.
Dentro do sistema
patriarcal o pater familias tinha poder de vida e morte sobre todas as
pessoas que estavam sob seu domínio: esposa (ou esposas), filhos e filhas,
escravos e escravas, animais e propriedades. Nisto consistiam suas posses. Não
é surpreendente, tanto dentro da mitologia como da história greco-romana (de
onde aliás deriva em grande parte nossa cultura ocidental) o número de jovens
que assassinam seus pais, tentando usurpar o seu poder. Dentro do sistema
patriarcal, o jovem somente poderia ser cidadão quando o pater familias
já não estava, e ele próprio podia assumir o lugar do adulto, como o novo pater
familias. Este assunto serviu como base para muitas reflexões. Cidadania,
na Antigüidade, era privilégio de alguns que utilizavam seu poder cidadão para
assegurar as benesses que o poder público lhes garantia. Estavam excluídos da
cidadania todas as pessoas que eram consideradas inferiores socialmente:
estrangeiros, escravos e escravas, mulheres, crianças e jovens.
O conceito de
cidadania, dentro do âmbito secular, só foi questionado mais de 20 séculos
depois de Platão. Foi durante a Revolução Francesa, com sua bandeira da
igualdade, liberdade e fraternidade, que a cidadania se expandiu, em parte,
para os segmentos da população que não eram senhores proprietários. Mas chama
atenção que também na Revolução Francesa algumas pessoas eram consideradas mais
cidadãs do que outras. A cidadania se estendia somente aos homens, não às
mulheres. É claro que havia muitas mulheres (e homens em solidariedade às
mulheres) que reivindicavam que também elas deveriam ter acesso ao poder
público. Em uma retrospectiva histórica, feita especialmente por historiadoras
feministas sobre a questão da cidadania, percebe-se que os líderes da Revolução
Francesa repetiam os mesmos argumentos utilizados no período grego: as mulheres
deveriam se ater ao mundo doméstico por terem uma natureza feminina, que as
prepara para a maternidade, o cuidado da casa, o cuidado do marido e dos
filhos. A fragilidade física e mental das mulheres não as equiparia ao
exercício do poder. Repetia-se a mesma argumentação dualista grega: os homens
são providos de razão, cultura, força física e superioridade mental; as mulheres
são caracterizadas pela paixão, sensibilidade, fraqueza física e incapacidade
mental.
É importante
reconhecer que a cidadania para as mulheres só foi alcançada através do
movimento sufragista (que iniciou no século XVIII e se estendeu até o século XX),
o precursor do movimento feminista. O movimento sufragista teve na inglesa Mary
Woolstonecraft uma de suas primeiras pensadoras (ela escreveu um manifesto, em
1796, intitulado "Reivindicação dos direitos das mulheres"). O
direito à educação, ao voto e à propriedade eram as demandas colocadas por este
movimento. Na maioria dos países, estas reivindicações só se tornaram realidade
no século XX, que é considerado, na história da humanidade, como grande século
das mulheres devido aos avanços reais que as mulheres tiveram no acesso à
cidadania. No entanto, a realidade das mulheres em muitas partes do globo
(pensando nas mulheres do Afeganistão que vivem sob o regime Taliban, ou das
mulheres na África, que sofrem mutilação genital, ou ainda das mulheres no Brasil,
que sofrem por causa da violência doméstica e do turismo sexual) relativiza
estes avanços porque, na verdade, a cidadania para as mulheres continua sendo
privilégio de um grupo relativamente pequeno.
Considerações bíblico-teológicas sobre cidadania
A menção da
cidadania na Bíblia não pode deixar de passar pela prática de Jesus. Por dois
motivos: Primeiro, porque ele desmascara as relações hierárquicas de poder que
existem em grande medida, mantidas pelo próprio poder religioso. Jesus nos
mostra que a religião nem sempre é libertadora, mesmo que dentro desta religião
haja elementos afirmadores de humanidade plena. Não quero ser mal entendida,
com este comentário, que Jesus seja contra o Judaísmo. Pelo contrário: Jesus
era judeu (e não cristão como muita gente pensa) e sua mensagem parte
justamente deste reservatório de sentido para retornar a ele, transformando-o.
Em segundo lugar, porque ele faz a ponte entre um discurso religioso e uma
prática social. A cidadania se dá na compreensão do Reino de Deus, mas esta
proposta já é experimentada concretamente (como antecipação da novidade do
Reino) entre nós hoje.
A prática de Jesus
é uma prática acolhedora. Todas as pessoas que entram em contato, diálogo ou
disputa saem do encontro transformados. Nisto consiste o diálogo autêntico: no
encontro com o outro ou a outra, o sujeito se transforma porque passa a ter uma
nova compreensão de si mesmo, do mundo e de seu papel no mundo. É claro que nem
sempre Jesus é capaz de transformar a mentalidade de seus interlocutores (entre
estes, por exemplo, alguns fariseus), mas ele deixa um exemplo muito
interessante de como lidar com pessoas que tem opinião diferente da dele. Ele
não relativiza o argumento de seus opositores (sempre o leva em sério), mas
busca desafiar para uma reflexão crítica a partir do universo de experiências e
conhecimentos que estes interlocutores têm. Às vezes Jesus mesmo sai
transformado deste encontro: ele muda de opinião sobre o seu próprio
ministério, através do seu diálogo com a mulher síro-fenícia. Ela lhe pede que
cure a filha doente, ele retruca que não veio para os gentios e que não pode
dar a comida das crianças aos cachorrinhos. Ela contesta dizendo que até os
cachorrinhos comem as migalhas da mesa. Jesus se comove com ela, muda de
opinião e cura a filha enferma.
A estrutura social
do tempo de Jesus era extremamente excludente. De certa maneira pode-se dizer
que ela fazia uma síntese entre as práticas do Levítico (que estipula as leis
de pureza e impureza) e a cultura romana (que exercia o domínio econômico,
militar e cultural da época). Neste contexto, a prática de Jesus representa um
movimento contra-cultural, mas baseado na tradição profética que caracteriza a
teologia bíblica. Assim, a sua aceitação de pessoas pecadoras, marginalizadas
na sociedade, publicanos, prostitutas, enfermos, pobres (Mc 2.15, Mt 5.45)
representa uma reviravolta para os padrões de sua época. Não é de se
surpreender que, assim como hoje, a multidão o seguia. Jesus cura, ensina,
perdoa, alimenta, faz festa, dialoga com pessoas de reputação questionável,
pessoas simples, mas também com pessoas que tem prestígio. Pode-se dizer que
Jesus afirma a cidadania plena tanto no Reino de Deus como no presente, pois
todas pessoas que entram em contato com ele são tratadas com dignidade e
respeito.
Muitas vezes, no
entanto, as próprias pessoas que o procuravam não tinham consciência plena de
suas próprias capacidades e potencialidades. Jesus aponta para esta capacidade
do ser humano superar-se ("vai e não peques mais"). Muitas vezes Jesus
é procurado porque as pessoas querem ser curadas, ouvidas, reerguidas, mas não
têm uma visão, um projeto para si depois disto acontecer. Exemplo disto é a
mulher que fala a Jesus, do meio da multidão (Lc 11.27-28). As palavras de
Jesus, em sua pregação, foram tão impactantes que a mulher, ao abrir a boca
para falar, quebra dois tabus sociais. Ela não respeita a ordem que mulheres
não deveriam falar em público e, em segundo lugar, que ela não deveria
dirigir-se a um homem. Jesus não a recrimina por sua audácia e coragem. A
mulher, quando fala, diz: "Bem-aventurado é o ventre que te gerou e os
seios que te amamentaram." A mulher poderia ter comentado acerca do papel
que a mãe de Jesus teve na sua formação, ou no orgulho que uma mãe sente quando
o seu filho segue o que ela havia profetizado no Magnificat, o hino de Maria,
onde ela fala teologicamente acerca de um Deus solidário com os pobres e
sofridos deste mundo. A mulher da multidão reduz a mulher a útero e seios, à
função de reprodutora. Aqui se percebe como Jesus muitas vezes vai mais longe e
é mais audacioso em sua proposta (também para as mulheres). Ele retruca:
"Antes bem-aventurados são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a guardam
(ou praticam, de acordo com o paralelo que está em Lc 8.21). Em outras
palavras, Jesus dá a ela a chance de se superar, de sair daquele espaço que a
religião e a cultura reservaram para ela e de almejar mais, de sonhar mais
alto. Ele lhe dá a oportunidade de ser discípula, pois escutar, guardar,
praticar a Palavra de Deus é uma descrição do que consiste o seguimento a
Jesus.
De modo especial
destaco o dom de Jesus em incluir as pessoas outra vez no convívio da
comunidade. Suas curas não são feitas para ostentar seu poder, mas para
restituir a dignidade humana às pessoas que antes estavam fora do convívio da
sociedade (lepra, hemorragia, possessão de demônios, etc.). A dimensão da
integração é um elemento forte na práxis libertadora de Jesus. Creio que nisto
consiste a dimensão cidadã da proposta de Jesus: na inclusão dos excluídos.
Quando Jesus cura a mulher recurva e lhe diz para erguer-se, retorna a ela o
título de "Filha de Abraão". A cura permite a restituição da
dignidade. A pergunta que para mim fica em aberto é se nós, que não temos o
poder de Jesus de curar e fazer milagres, reconhecemos quem é portador de
deficiências físicas e mentais como filhos e filhas de Abraão? Em que medida
nosso testemunho como Igreja de Cristo restitui a dignidade e inclui as pessoas
socialmente excluídas?
Esta dimensão da
inclusão é atestada pelas primeiras comunidades na fórmula de batismo que Paulo
anotou em Gálatas 3.27-28: "Mediante o batismo já não há mais judeu nem
grego, escravo nem livre, homem e mulher, porque sois um em Cristo Jesus".
A Igreja é o corpo de Cristo (1 Coríntios 12), o lugar onde todos seus membros
são igualmente importantes. A comunidade se compromete, mediante o batismo, a
continuar a prática de inclusão iniciada em Jesus. Mesmo que a sociedade
discrimine e dê menos valor às pessoas, baseada em preconceitos de raça ou etnia,
de gênero, de classe, de nacionalidade, na Igreja não será assim. Na comunidade
todas pessoas serão tratadas de modo igual. É a isto que o batismo compromete.
Muito mais do que uma formalidade litúrgica, o batismo é um compromisso de
testemunho. Assumir-se como cristão e cristã é comprometer-se com a inclusão.
Por isto, não há nada mais contraditório do que a igreja que fecha suas portas
para pessoas que são consideradas "diferentes" pelos padrões da
cultura e da sociedade. Quando a igreja segue os valores deste mundo, ela perde
sua voz profética. Pior, ela esquece seu amor primeiro, que é Jesus, e se
acomoda aos padrões discriminatórios, excludentes, hierárquicos. Como diz a
poetisa mineira Adélia Prado, a Igreja tem mais pecado do que todo o mundo junto.
Isto não se pode negar. Mas ainda assim ela tem uma tarefa a cumprir, ela
guarda a memória do povo de Deus e serve de instrumento para a propagação do
Evangelho.
Diaconia: um compromisso a serviço da vida
Na linguagem
bíblica, a cidadania se traduz na concepção de que cada criatura é especial
diante dos olhos de Deus. Deus nos criou de acordo com sua imagem, nos sustenta
e mantém. A vontade de Deus, expressa nas palavras de Jesus, é que tenhamos
vida, e a tenhamos superlativamente: em abundância. Deus nos dá vida para a
nossa felicidade e para tornar felizes as pessoas e o mundo que nos cerca. Este
princípio da dignidade da vida está presente da primeira à última página da
Bíblia, exigindo, muitas vezes, palavras e gestos contundentes de profecia (denúncia
de injustiças e anúncio de uma nova realidade). Deus nos criou, e cada uma de
sua criaturas é feita à sua imagem. Vocês já se deram conta do que isto
realmente significa? Isto quer dizer que cada pessoa, cada criatura, deve ser
tratada como imagem de Deus. Se eu olho uma pessoa nos olhos, vejo refletida
nela a imagem de Deus, e devo tratá-la com o respeito e a dignidade que ela
merece. Talvez seja por isto que para nós, seres humanos, seja tão difícil
encarar-nos mutuamente com os olhos. Desviamos o olhar porque sentimos culpa,
medo, fragilidade, porque muitas vezes não nos sentimos à altura das
expectativas que nós mesmos nos colocamos. Outras vezes queremos evitar o
olhar, especialmente aqueles olhares de sofrimento, súplica e dor porque
sabemos que seremos afetados por estes olhares pedintes. Eles nos comovem.
Então, é mais fácil olhar em outra direção, manter-se ensimesmado. Outras
vezes, ainda, compensamos nossa insegurança com falsa arrogância, crendo que
olhando outros de cima para baixo convenceremos a nós mesmos (e aos demais) que
somos auto-confiantes, capazes e imunes à dor (inclusive a nossa própria dor).
O modelo de
diaconia (serviço) instaurado por Jesus se encontra pautado em Mc 10. 42-44,
onde Jesus afirma que, contrário à maneira como se dá o poder e se tomam
decisões no mundo, "entre vós não será assim: pelo contrário, quem quiser
tornar-se grande entre vós, será este o que vos sirva. E quem quiser ser o
primeiro entre vós será servo de todos." Diaconia é o serviço prestado em
benefício da outra pessoa. Neste conceito de Jesus está uma oposição ferrenha
ao modelo de poder caracterizado pela filosofia grega. Entre os gregos (e
consequentemente também entre os romanos) o ideal era ser livre e autônomo e
não depender de ninguém. Assim, Jesus inverte duas polaridades. Por um lado,
ele afirma que poder se dá no serviço, ou seja, que na concepção cristã a
autoridade tem o dever de servir aos demais (algo que só mais tarde foi
desenvolvido no conceito político de democracia). Governantes, de acordo com a
lógica do mundo, são os que exercem domínio. Por isto Jesus provoca: líderes
são os que servem, não os que dominam e intimidam. Por outro lado, Jesus também
inverte o pensamento grego (de autonomia e auto-suficiência) quando reconhece
que seres humanos necessitam uns dos outros. Diaconia é ir ao encontro das
pessoas que necessitam de ajuda.
No Novo Testamento,
o termo diakonein pode ser traduzido tanto por serviço como por
ministério, cargo ou função. É interessante identificar que muitos teólogos fazem
interpretações discriminatórias quando o termo é utilizado, atribuindo
especialmente às mulheres a parte do serviço e aos homens a parte do
ministério. É flagrante observar como o mesmo termo é interpretado de modo
diferente. Em Romanos 1.1 o termo se refere a Paulo e em Romanos 16.1 a Febe.
Na pesquisa sobre diaconia na Bíblia descobre-se que ambos, Paulo e Febe, são
descritos como diáconos, mas Paulo é reverenciado pelos intérpretes pelo seu
papel evangelizador e pregador, enquanto Febe é freqüentemente presumida como
ajudante de Paulo, facilitadora de seu trabalho. Romanos 16.1ss nos apresenta
Febe, uma mulher que é diácona, líder da igreja de Cencréia, escolhida para
representar a comunidade em Roma e que é reconhecida como protetora de Paulo.
Para não cair em interpretações discriminatórias, é importante reconhecer que
tanto homens como mulheres exercem diaconia, seja no serviço voluntário
prestado à comunidade, seja através de ministérios específicos designados pela
Igreja.
Em muitos sentidos
o termo diakonein (servir) foi desprestigiado a partir da interpretação
que se faz de Lucas 10.38-42. Nesta passagem, Marta e Maria recebem Jesus em
sua casa. Maria senta-se aos pés de Jesus -- numa atitude típica de discípula
-- enquanto Marta serve à mesa. A pergunta de Marta "Senhor, não te
importas de que minha irmã tenha deixado que eu fique a servir sozinha?"
(v.40) parece contrapor o ensino/aprendizagem e o serviço/diaconia. A resposta
de Jesus, que Maria escolheu a melhor parte e que esta não lhe será tirada,
parece dar mais importância à palavra do que ao serviço. Mas a interpretação
bíblica de Elisabeth Schüssler Fiorenza nos ajuda a melhor entender esta tensão
que já estava presente na comunidade para a qual o evangelista escreve. Na
memória do evangelista, Marta era uma líder que exercia discipulado. Era em sua
casa que a comunidade se reunia. Como dona da casa, ela era responsável pelo
serviço à mesa que incluía a celebração eucarística. O serviço à mesa é, então,
parte de um ministério mais amplo, que abrange a preocupação social e a
reflexão teológica. Esta tensão entre a "melhor parte" da qual o
Jesus de Lucas fala reflete que já havia na comunidade um conflito de
interesses sobre qual o papel que a diaconia tinha dentro dela. Neste sentido a
música Diaconia, de autoria de Rodolfo Gaede Neto e Erli Manske,
recupera esta dimensão dupla da diaconia que envolve tanto o anúncio quanto a
vivência do Evangelho, na proposta da diaconia como Marta-Maria. As duas
dimensões são imprescindíveis: o serviço e o anúncio.
Diaconia, no
sentido bíblico, é empenhar-se em favor da vida, daquela vida abundante
propagada por Jesus. É por isto que os termos diaconia e cidadania estão
intimamente ligados. Um sem o outro não subsistem dentro da concepção cristã. A
pergunta que guia a diaconia é: o serviço leva à formação cidadã ou leva à
dependência? O objetivo da diaconia é a dignidade humana, a restituição da
humanidade plena, o reconhecimento do potencial criativo e criador que está em
cada ser humano. Por isto diaconia é o serviço que promove empoderamento, a
cidadania da pessoa que é servida pela Igreja. Em contrapartida, a cidadania
sem diaconia só se volta para os direitos do indivíduo, facilmente esquecendo
os valores da dignidade, solidariedade e justiça para outros (e não só para
si).
E a juventude?
Um dos assuntos que
quero tratar neste segmento é o da cidadania eclesial. Quantos jovens se sentem
realmente cidadãos dentro de suas denominações religiosas? Ou seja, pergunto se
aquilo que os jovens dizem, fazem e propõem é levado em consideração pelo todo
da Igreja. A sociedade civil assegura que um jovem pode votar a partir dos 16
anos de idade, que a sua opinião é valorizada e considerada democraticamente
para decidir desde a escolha de líderes políticos até a elaboração de políticas
públicas. Com relação às igrejas, qual é o papel que os jovens desempenham? As
iniciativas diaconais apresentadas durante a Feira mostraram o envolvimento dos
jovens em trabalhos socias, de assistência, prestação de serviços, evangelizacão
e missão nas diferentes igrejas. Este é um testemunho dado tanto pelos jovens
como pelas suas igrejas, que os dons e talentos de sua membresia jovem podem
ser criativamente empregados.
É motivo de alegria
constatar que os jovens fazem parte do cotidiano das comunidades, que grupos de
jovens fazem teatro, arte, dança, música e poesia, trabalham com crianças de
rua e crianças das próprias igrejas, emprestam o seu tempo e talento a projetos
já organizados e em andamento (visitação a pessoas doentes, ancionatos,
serviços de saúde), lideram e participam de cursos bíblicos, ou simplesmente se
reúnem, como jovens, para estar com gente de sua idade para discutir seus
próprios assuntos. Atos 5.1-11 mostra como os jovens participavam da vida
comunitária na igreja antiga, executando tarefas simples mas necessárias (em At
5.6, 10, os jovens são chamados para enterrar os mortos). Também na comunidade
cristã atual, os trabalhos que os jovens fazem são necessários e lidam com o
cotidiano. Muitas vezes são atividades voltadas para outros jovens. Quem melhor
do que o próprio jovem para saber quais necessidades devem ser atendidas?
Algumas vezes, no
entanto, a capacidade, energia e criatividade da juventude deixam de ser
utilizadas nas igrejas por preconceito, ou seja, que ser jovem significa não
ter responsabilidade e não levar as coisas à sério. Deus não fazia a menor
distinção quanto à idade. No texto da vocação de Jeremias (Jr 1.4-10), é o
próprio Jeremias quem usa a sua juventude como desculpa para não atender o
chamado de Deus. É Jeremias quem diz ser muito jovem, sem experiência, incapaz
de falar. Deus, então, precisa convencê-lo a superar o seu próprio medo e o
preconceito que tem para consigo. Deus o chama para ser profeta -- denunciando
as injustiças e desigualdades, anunciando uma nova realidade – e se compromete
a estar sempre com ele. Na história do povo de Deus, muitas mulheres e homens
foram chamados ao mesmo ministério. Talvez a voz da juventude seja a voz
profética que nós precisamos hoje. Jovens, como Jeremias, oferecem um olhar que
é ao mesmo tempo crítico e cheio de possibilidades. Se as igejas não reconhecem
este potencial trazido pelos jovens às igrejas, estamos desperdiçando os dons e
talentos que Deus oferece.
Dentro de uma
perspectiva crítica, lembro-me do texto de Atos 20.7-12, quando o apóstolo
Paulo está pregando e um jovem, que o escutava sentado na janela, adormece e
cai de uma altura equivalente a três andares. O rapaz sobrevive, mas deixa um
questionamento (não escrito no texto bíblico, naturalmente) sobre o método de
trabalhar com jovens hoje. Paulo pregava e, estendendo-se na sua pregação, fez
com que o jovem adormecesse e caisse. Em que medida o jeito com que as igrejas
trabalham com jovens leva a um sono profundo, ao invés de uma participação ativa
na vida da comunidade de fé? As igrejas permitem aos jovens um jeito próprio de
trabalhar, de decidir as prioridades, de desenvolver seus projetos? As
diferentes barracas na Feira da Juventude mostraram que os jovens desenvolvem
trabalhos criativos, engajados, celebrativos, ecumênicos, participativos e
cheios de vida. O jeito convencional não é o único, e às vezes as igrejas
precisam assumir o risco de ensaiar coisas novas.
Por fim, fica a pergunta aos próprios jovens, sobre seu compromisso com a transformação da igreja e da sociedade. Percebo que os jovens das igrejas estão preocupados com os assuntos atuais: a pandemia da Aids, a corrupção do governo, o fosso social que separa ricos e pobres, a violência generalizada, os perigos das drogas, a prostituição infantil, a manipulação dos meios de comunicação, para mencionar apenas alguns tópicos. Percebo que os jovens nem sempre encontram nas igrejas um espaço para articular sua insatisfação e tampouco encontram nelas o estímulo (ou os recursos) para entender melhor e mais criticamente a realidade que nos cerca. No entanto, é possível superar estas dificuldades através de contato com grupos de jovens de outras comunidades, outras igrejas, ou até mesmo organizações fora das igrejas, procurando saber como é possível um engajamento diaconal em prol da vida, como ser cidadão e cidadã da Igreja e do mundo, como possibilitar a cidadania através da diaconia. Às vezes é necessário inventar redes alternativas para criar uma sociedade mais participativa.