Criatividade pela cidadania

Eugênio Lima *

 

Boa noite, eu queria iniciar minha fala contando uma história e que vocês pudessem participar dessa história comigo, pensando até que ponto vocês contribuem com essa história, até que ponto também a gente construiu essa história dessa maneira, e como a gente pode também construir essa história diferente ou não.

Um dia de sábado do ano de 1996, de madrugada, eu estava dormindo, quando a minha esposa, assustada, me chamou: tem alguém gritando, eu estou com medo! E eu falei: pense positivo, que nada acontecerá com a gente. Mas ela estava apavorada. Quando eu ouvi umas falas: Polícia, abra a porta! Se não eu vou arrombar! Eu, com medo, abri. Um deles falou: Acenda a luz! E começaram a me espancar e perguntar: Cadê o descarado que mora aqui? E eu respondi: Quem mora aqui sou eu, minha filha e minha esposa. Quebraram meu queixo, me levaram para o hospital. Escondido, dei meu telefone a uma moça no hospital, e pedi que ela avisasse a minha esposa que eu estava vivo. Depois me levaram para a delegacia. Fiquei com fome até o dia seguinte. O delegado chegou, contei minha história a ele. Mas ele disse que não podia fazer nada. Disse-lhe quem eu era, mas ele não acreditou em mim. Na segunda-feira, o delegado titular chegou, Bastante educado, ele me atendeu e começou a me interrogar. Viu que eu estava falando a verdade, mas não me soltou. A equipe do CRIA chegou com um advogado, e eles me soltaram. Daí para cá nunca mais dormi tranqüilo. Fiquei traumatizado. Um dia chegou uma carta lá em casa, perguntando se eu queria identificar os policiais. Eu respondi para mim mesmo: deixa pra lá, pois Deus toma conta disso e dará o troco por todos nós. Mas ao mesmo tempo, pensei: isso não pode ficar assim. Tem muitos policiais corruptos; melhor ficar calado. Quem fica calado vive mais.

Eu estou aqui representando um movimento social que é o Movimento de Intercâmbio Artístico Cultural pela Cidadania (MIAC). E esse movimento, ele veio a existir, exatamente, por essa situação que o nosso país se encontra. A pergunta final desse rapaz que conta essa história é: Melhor ficar calado, quem fica calado vive mais. Eu vejo em vocês e em todos os que estiveram aqui na mesa o falar, e o falar para contribuir, para construir uma nova história – não é isso que tem na camisa? – construir um novo mundo, que é a maneira que a gente pode participar. E esse movimento, ele veio a surgir como um espaço de escuta onde o jovem pudesse estar se expressando, transformando esses momento que são momentos de dor em arte, em alegria, em circo, em poesia, e que pudessem estar, de alguma maneira, contribuindo para que essa história fosse contada diferente, para que essa história estivesse acontecendo de uma outra maneira.

E aí a gente pergunta – já vi todos aqui na mesa falar, e vocês também já devem ter falado no encontro – sobre as dificuldades que o jovem vem encontrando nessa sociedade, que tem a ver muito com a nossa educação, essa educação que de uma maneira é dada para os ricos, e de outra maneira é dada para quem é pobre, mas que, ao mesmo tempo, ela não difere muito na qualidade, porque a educação nossa não está formando cidadãos, ela forma somente para o vestibular ou para o mercado de trabalho; Saúde... a gente encontra jovens que se perguntam "Quem sou eu? Como serei? O que farei nessa sociedade? Como será o meu futuro?" E não encontra resposta. É muito difícil se encontrar respostas nessas instituições, nesses lugares, na escola, na sociedade. As pessoas estão ouvindo pouco e deixando muito pouco ainda o jovem falar. A gente pergunta ao jovem qual o papel dele, como foi perguntado no vídeo, e ele não sabe dizer, porque as perguntas básicas para ele também não estão sendo respondidas. E a gente pergunta o que é que a gente pode estar fazendo, o que é que vem sendo feito? Aqui em Salvador, através desse movimento, a gente vem tentando articular algumas coisas que já acontecem na nossa sociedade, para que a gente venha firmando essa parceria de Estado, família e sociedade civil, para que isso venha começar a promover ações sociais que tirem o jovem desta situação que ele se encontra, de grande dificuldades, e que ele possa se sentir um sujeito de direitos e um cidadão que possa, realmente, estar contribuindo com as coisas que vêm acontecendo nessa sociedade. E aí eu também pensei numa poesia para finalizar a minha fala.

Foi mostrado aqui, desde o início, muita coisa com arte, e a gente vem se perguntando como é que pode atrair essa juventude para esses movimentos, para dentro da igreja, para que não vá lá para fora, e aí esteja se envolvendo com as drogas, esteja cometendo atos violentos, porque tudo isso é falta de espaço de escuta e também de onde ele possa ser valorizado, e possa ser colocado esse potencial criativo e cidadão que ele tem, como todo ser humano. Castro Alves diz assim:

"Talhado para as grandezas,

para crescer, criar subir

um novo mundo nos músculos

sente a seiva no porvir

estatuário de colosso

cansado d´outros esboços

disse um dia Jeová:

vai, vai, Colombo

abre a cortina

da minha eterna oficina

tira a América de lá.

Filhos dos séculos das luzes

filhos da grande nação,

quando antes Deus vos mostrardes

tereis um livro na mão

o livro, esse audaz guerreiro

que conquista o mundo inteiro,

sem nunca ter Waterloo

é ouro de pensamentos

que abrira a gruta dos ventos

donde a igualdade voou

por isso na impaciência

desta sede de saber

como as aves no deserto

as almas buscam beber.

Oh, bendito que semeia livros

livros à mão cheia

e manda o povo pensar!

O livro que caindo na alma

é germe que faz a palma

é chuva que faz o mar!"

*Ator e Monitor do Núcleo de Teatro do Centro de Referência Integral de Adolescentes (CRIA) e representante do Movimento de Intercâmbio Artístico Cultural pela Cidadania (MIAC).