Uma experiência de militância cristã nos anos 60

Ivo Lesbaupin*

Minha vivência cristã é marcada pela experiência da Juventude Estudantil Católica (JEC), onde ingressei por volta dos 14 anos (1960/61). É preciso lembrar o contexto histórico: estes foram anos de muita efervescência na política brasileira. Era a época da campanha pelas reformas de base, das quais a mais importante era a reforma agrária. Desde 1955, vinha crescendo o movimento das Ligas Camponesas. Na área urbana, era intensa a mobilização operária, com muitas greves - seja por motivos econômicos, seja políticos. A direção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) - liderada por Dom Hélder Câmara - tomava posição a favor dos pobres, dos trabalhadores (numa Igreja católica ainda majoritariamente conservadora). A JEC, seguindo os passos da Juventude Universitária Católica (JUC), despertou para a justiça social, para a questão da pobreza e da miséria no Brasil.

Esta experiência na JEC até hoje tem um peso enorme na minha fé cristã. A concepção que aí aprendemos foi a de um cristianismo encarnado, engajado, comprometido com os pobres, com o povo. Uma fé que significa fidelidade a Jesus Cristo, uma fé que implica ação e ação social e política. Aprendemos que ser cristão significa amar os outros e vivemos esta prática do desprendimento, da dedicação, com o ardor de que os jovens são capazes. Fé e política estiveram, desde o início, unidas para nós: a exigência da política, do grande serviço aos outros, nascia da fé. Houve também os conflitos internos na Igreja: os bispos conservadores se opunham a este engajamento dos leigos na política numa perspectiva de justiça social (aceitavam de bom grado, porém, o engajamento pela manutenção do status quo). O conflito acabou provocando uma ruptura: em 1966, a JUC foi inviabilizada pela hierarquia.

Em 1965 entrei para a Ordem dos Dominicanos. Tinha tido um contato mais próximo com os frades na JEC. Frei Emmanuel, o Manú, era assistente da equipe nacional de JEC feminina. Frei Romeu era assistente da JUC do Rio e Frei Mateus Rocha, inspirador de muitos militantes da JEC e da JUC de Belo Horizonte, tinha escrito o livro "JEC - o Evangelho no colégio". Era a Ordem que, a nosso ver, era mais engajada na problemática social - é só lembrar do "Brasil Urgente", dirigido por Frei Carlos Josaphat em São Paulo - e ao mesmo tempo mais sensível aos problemas e às inquietações dos jovens.

No grupo de doze jovens que entrou no noviciado este ano, metade vinha da JEC, de vários lugares do Brasil, entre os quais o Betto. No noviciado, lembro de uma visita ilustre: Richard Shaull, teólogo protestante, autor do livro Teologia da Revolução, que foi o primeiro nesta linha de reflexão, visitou o convento e nós pudemos conversar com ele.

Depois do noviciado em Belo Horizonte, fomos fazer filosofia no estudantado em São Paulo: em 1966, ainda no convento; a partir de 1967, no Instituto de Filosofia e Teologia (IFT) e um ou outro curso livre na Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Foi por esta época, já em 1968, que começamos a nos organizar num pequeno grupo de frades - só um era ordenado, Fernando, os outros todos estudantes - que ajudava a esconder pessoas procuradas pela polícia em razão de atividades "subversivas". Escondíamos alguns dias na cidade e, depois, encaminhávamos para a saída pelo Sul do Brasil. Isto parecia para nós a realização de um antigo ideal - a revolução, a transformação radical da realidade social e política do país em direção a um futuro mais justo. E este futuro nos parecia próximo.

Não demorou muito para percebermos e sentirmos a dura realidade da repressão. Em novembro de 1969, fomos presos. Passamos pelo mesmo tratamento que passaram todos os que foram presos depois do AI-5 (Ato Institucional n. 5, de 13 de dezembro de 1968): a tortura. Esta prática, que tinha sido eventual antes de 1969, tornou-se sistemática. Esta experiência desde os primeiros dias lançou uma nova luz sobre o Evangelho: a cruz, a perseguição, o sofrimento - que sempre nos tinham parecido traços de uma história antiga e com uma conotação mais moral que real para a época contemporânea - agora se tornavam realidade. Não eram coisas do passado, não eram apenas reservadas a Jesus e aos primeiros cristãos. Curiosamente, o único livro que nos foi permitido naqueles dias na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), foi a Bíblia. E como nos ajudou!

As paredes da cela continham várias frases escritas por alguns dos companheiros que nos haviam precedido. Lembro-me particularmente de duas, que me marcaram muito:

"Neste punhado de homens que não têm outra alternativa senão a morte ou a vitória, onde a morte é um conceito mil vezes presente e onde a vitória é um mito que somente um revolucionário ousa sonhar" - Che Guevara.

Heb 9, 22: "Sem derramamento de sangue, não há redenção".

Depois de quase um mês na DOPS, fomos transferidos para o Presídio Tiradentes, para onde iam os presos políticos depois da fase de interrogatórios. Ficamos quase um ano numa mesma cela, a cela 7, a maior deste pavilhão (o Presídio tinha sido construído ainda no tempo da escravidão, em 1851), na qual havia cerca de 45 presos. Foi um tempo muito tenso, muitas prisões ocorrendo, muita gente chegando, saindo, sendo transferida. O que nos marcou mais neste período foi a convivência entre cristãos - um pequeno grupo - e marxistas - a grande maioria. Em primeiro lugar, os testemunhos de amor, de solidariedade, dados por companheiros marxistas ou ateus. Certa vez, conversei mais de uma hora com um destes companheiros, que me falou sobre o amor, o amor aos outros, ao povo. Nunca pensara que poderia receber lições sobre o amor de um ateu.

Além disso, há um outro elemento: o preso político, assim que entra na cadeia, já se organiza! Você vê: os presos comuns, tem um chefão que manda! Preso político entrou, já organiza o coletivo! O coletivo, se é um grupo grande, formam-se vários pequenos grupos. Nós éramos 45-50, nos organizamos em 9 grupos de 5. Cada dia um dos grupos se encarregava da limpeza toda da cela, de fazer a comida, e assim por diante. Nessa época, a gente recebia os alimentos e fazia a comida na própria cela. E enquanto esse grupo se ocupava da arrumação da cela e da alimentação, os outros oito grupos se reuniam de manhã para estudar. Estudar o que? Naquela época, livros sobre temáticas políticas eram absolutamente proibidos. Então, entravam livros didáticos, de História, Geografia, e a gente distribuía 8 livros entre os 8 grupos. Cada grupo lia um livro e ficava estudando por duas horas. Depois, à tarde, a gente começava a fazer trabalhos manuais. Era uma cela que era uma síntese da sociedade, porque tinha desde operários de fábrica, camponeses, até médicos - havia 3 médicos na nossa cela; havia também grandes intelectuais; passou alguns dias entre nós o Caio Prado Júnior, o Jacó Gorender estava nesse pavilhão – aliás, nos deu aulas de marxismo (para os cristãos) – e estavam presentes as principais lideranças das organizações revolucionárias dessa época – Ação Libertadora Nacional, Ala Vermelha, PcdoB, etc.

Tivemos uma experiência interessante porque, nos primeiros dias, com aquele clima tenso, todo mundo vindo da DOPS, ou da Operação Bandeirantes (OBAN), a gente fez uma missa (tinha uma padre entre nós – Frei Fernando). Fizemos uma missa e os ateus assistiram, acho que mais por respeito a nós. Mas também era bom para produzir uma espécie de congraçamento. E, pouco a pouco, nós fomos fazendo, a cada domingo, uma celebração. O domingo, apesar de estarmos na prisão, era um dia diferente: não era igual aos outros dias. E domingo à tarde, a gente fazia esta celebração - não chegava a ser missa: tomávamos um texto da Bíblia, um texto de algum poeta, Pablo Neruda, por exemplo, líamos e fazíamos reflexões, com todos participando.

Essa celebração que, no início, éramos só nós e os outros assistiam, pouco a pouco se tornou uma celebração da cela. E houve uma coisa curiosa: alguns meses depois, nós achamos que talvez estivéssemos criando uma situação constrangedora, forçando os outros a assistirem algo de que não gostavam. Pensamos: "nós somos cristãos, estamos fazendo celebração, mas talvez os marxistas não queiram; a gente está meio obrigando eles a participar sem querer, é melhor a gente suspender". Suspendemos a celebração. Falamos com a liderança da cela: "nós vamos fazer só entre nós, para não atrapalhar vocês". Aí houve uma reunião da direção do coletivo, que veio se reunir com a direção dos cristãos, e nos disseram: "olha, quando vocês começaram as celebrações, era de vocês; mas agora, não, ela não é mais de vocês apenas, a celebração é da cela toda, e é absolutamente fundamental, o coletivo exige que as celebrações continuem". E por que eles achavam importante? Eu acho que é porque, no fundo, essas celebrações semanais ajudavam a manter o moral, já que a vida na prisão corre o risco de ficar monótona, todo dia a mesma coisa, então essa celebração ajudava a dar firmeza ao grupo.

Na verdade, eram celebrações profanas, o esquema da liturgia era mais ou menos aquele conhecido - leitura de texto, reflexão - mas já tinha se transformado, a pessoa não precisava ser cristã para participar dela. A gente lia algum texto que falasse sobre a vida e refletia. As reflexões, como eram coletivas, demoravam umas duas horas e, no final, a gente fazia uma partilha: a gente tinha biscoitos e Ki-Suco (Ki-Suco era um suco artificial dessa época) e passava esse Ki-Suco entre todos, como símbolo da comunhão. Era uma celebração macro-ecumênica.

Nós tivemos, inclusive, um dia – nós só ajudamos do ponto de vista ritual – uma Celebração dos Mártires; aí participou o pavilhão todo. Nós tínhamos as janelas das celas que se voltavam para dentro e a gente podia mais ou menos ver as janelas, as portas das outras celas, e a partir dessas portas e janelas, no pavilhão todo, se fez uma Celebração dos Mártires da Revolução. Então todos os que tinham morrido nesse período, seja na rua, seja nas prisões, foram lembrados. Foi uma verdadeira celebração dos mártires feita por um presídio onde 90-95% eram marxistas. E foi impressionante essa celebração feita por gente acredita também num outro mundo – num outro mundo não, numa nova vida – num novo mundo criado a partir deste aqui. Esta convivência com os marxistas foi para nós um experiência muito importante.

Na prisão, presenciamos muitos testemunhos de confissão e de martírio: desde Jeová, jovem que vimos na DOPS chegar carregado dos interrogatórios, mas com moral alta; até a segunda tortura de Frei Tito, em fevereiro de 1970 na OBAN (a primeira tinha sido em novembro, na DOPS). Tito foi torturado barbaramente durante três dias por três equipes distintas da Operação Bandeirantes. Não cedeu a seus torturadores. Ao 3o. dia, tentou o suicídio, o que o levou ao hospital militar. Uma semana depois, voltou ao Presídio, onde ainda chegou com marcas evidentes dos suplícios a que fora submetido. Ele subiu as escadas do Presídio sob forte ovação dos companheiros. Foi a recepção mais calorosa a que assistimos: ele saíra alguns dias antes como preso, voltava como herói.

Cabe lembrar também o testemunho de homens de Igreja que nos marcaram neste período e a postura diferenciada de dois arcebispos de São Paulo. Quando chegamos ao Tiradentes, passados alguns dias, recebemos a visita de Dom Agnello Rossi. Reunidos numa sala, na presença do diretor do Presídio, ele nos interrogou sobre o que tínhamos feito para ser presos. Menos de um ano depois, logo após sua nomeação para o arcebispado de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns nos visitou, ainda antes de sua posse. E disse estar fazendo isto para manifestar sua solidariedade a seus irmãos presos. A diferença entre as duas atitudes não poderia ser maior. Sentíamos que estávamos recebendo a visita de um pastor.

Depois de dois anos e meio no Tiradentes, uma greve de fome nos levou à Penitenciária do Estado - uma semana -, ao Carandirú - três semanas - e, finalmente, à Penitenciária Regional de Presidente Wenceslau - onde ficamos o ano e meio que faltava para completar nossa pena. Foi um período muito rico de convivência com os presos comuns. Mas contar esta experiência exigiria muito mais tempo do que disponho agora.

* Sociólogo, Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da equipe Instituto de Estudos da Religião – ISER-Assessoria.