Creio que um outro mundo é possível

Zezéu Ribeiro*

Boa noite, jovens aqui presentes. Boa noite aos jovens de idade e aos que mantém a juventude, apesar dos anos. Conhecemos o trabalho que esses jovens mais maduros têm desenvolvido. Eu trago aqui comigo uma série de interrogações e algumas questões a colocar para vocês. Primeiro, eu queria dar um testemunho. Comecei a fazer política com 15 anos – acho que aqui todos devem ter mais que isso. Em 1965, lutando contra a Lei Orgânica da Educação, contra o Acordo MEC-USAID, fazendo política no curso secundário, que era a forma de inserção que os adolescentes tinham para contribuir com a sociedade. Participando do grêmio, do coral, do jogral da escola, das atividades de lazer, de esporte, de cultura e intervindo dentro da escola. Nessa época, eu ouvi o mestre Florestan Fernandes dizer, num debate: "para a escola ser boa, é preciso que a direção da escola queira que a escola seja boa, que os professores queiram uma escola boa, que os funcionários queiram que a escola seja boa, e que os estudantes queiram que a escola seja boa; se não houver a congregação de todas essas vontades, não se faz uma boa escola". Quer dizer, onde quer que estejamos, devemos interferir, lutar para definir como vai ser a qualidade de nossa vida.

Infelizmente, temos uma sociedade que é patrimonialista. A elite que domina o País, que detém o poder, confunde o espaço público e o privado e se apropria particularmente da riqueza que é socialmente produzida. Alguns dizem que são contra a política, como uma das jovens declarou no filme. Eu pergunto para vocês: existe saída fora da política? Porque ou é a política ou é a barbárie. Ou é o processo político, onde sentamos, discutimos e construímos o entendimento ou fazemos a disputa, ou vale a lei do mais forte. Quem tem a força, domina. O problema é como a política é feita. E ela pode ser feita de forma diferente. Cabe-nos fazer a boa política. Em Salvador, em lugar de políticas públicas para a juventude, quando muito, temos uma verba assistencialista e clientelista, buscando fazer a cooptação de movimentos, de associações, grupos de jovens, etc., sempre como " um negócio" e não como uma política pública. Eu chego a dizer que essa elite que domina o país na política, na economia, tem o dom de ser o anti-Midas – o que Midas pegava virava ouro; o que esse pessoal pega vira m..., não é? É o oposto do que deveria ser.

Devemos estar preocupados na formulação da boa lei. Nós, a sociedade civil, já construímos boas leis. Alguns dos presentes, ajudaram a construir o Estatuto da Criança e do Adolescente. É uma lei extraordinária! Mas como é que é feita a gestão dessa lei pela elite? De uma forma perversa, clientelista, assistencialista, cooptadora. Não para beneficiar a criança brasileira. Outra lei que a sociedade construiu: os trabalhadores da Saúde, os usuários da Saúde, as entidades médicas, os próprios empresários da área da Saúde participaram do processo da formulação da Lei do SUS. Mas, a gestão perversa feita por aqueles que dominam este País, tornou o SUS sinônimo de corrupção, de fila, de mau atendimento. Pois bem, essa mesma lei gerenciada por quem tem um compromisso social, realiza atendimento universalizado, público e de qualidade. Na mesma base, a mesma lei. Mas é a gestão diferenciada!

Cristovam Buarque, que foi governador do Distrito Federal, diz que no Brasil o Estado chegou antes de se constituir a Nação. Chegou de caravela. O Estado Português chegou aqui de caravelas, antes de se construir a Nação. E fica para nós a pergunta: quando é que passou a existir a nação brasileira? Essa é uma reflexão que eu queria deixar para vocês. Quando é que o Brasil se faz nação? Aprendemos lá na escola, que foi um príncipe português que fez a independência. Estou me recordando de ontem, quando fomos para a rua, comemorar a verdadeira independência do Brasil – que os outros estados do Brasil desconhecem que se deu aqui no dia 2 de Julho de 1923, com a guerra contra os portugueses. Pois bem, na escola aprendemos que o pai disse para o filho português: "meu filho, toma conta dessa coroa, antes que um aventureiro lance mão dela!" E não nos perguntamos: quem eram os aventureiros? Éramos nós, o povo brasileiro. Porque eles sempre dão um jeitinho de continuar mandando. Assim também foi na República, assim também foi na Revolução de 30. Em 1930, na Bahia não havia nenhum revolucionário. Mandaram buscar um tenente no Ceará, Juracy Magalhães, para acabar com o coronelismo daqui, que dava sustentação à República Velha. Num instante, ele se tornou o coronel dos coronéis. Na Nova República, também foi da mesma forma! Sepultaram as Diretas Já, impuseram o Colégio Eleitoral e via voto congressual, elegem Tancredo. E deu Sarney! Como a gente vê, eles continuam aí, mandando do mesmo jeito. Temos que mudar esta forma de fazer política.

Hoje, temos uma chance de mudança. Está nas nossas mãos. O futuro é aqui e agora. E podemos fazer isso com um trabalho de juventude. Nós temos nos preocupado com essa questão, ao nível da nossa intervenção na Câmara de Vereadores de Salvador e constituímos uma Frente Parlamentar em Defesa da Criança e do Adolescente, apresentamos emendas para o orçamento, encampamos na Câmara a Campanha de destinação de parte do Imposto de Renda para o Fundo Municipal da Criança e do Adolescente de Salvador. Cabe registro, a aprovação de uma Moção contra a Redução da Idade Penal, matéria na qual vocês podem desenvolver um trabalho enorme, de pressão sobre o Congresso Nacional. Durante o processo de discussão política dessa matéria, eu ouvi um vereador/médico pediatra, defender que com 12 anos, o adolescente já é suficientemente maduro psicologicamente para ser responsabilizado e alegou um estudo realizado na Suécia. Pois bem, esse mesmo médico, depois da pressão social que nós conseguimos fazer, envolvendo atores da sociedade civil, votou pela aprovação da Moção. Resultado, a partir da mobilização social, do CRIA, das pastorais, do Conselho, etc, conseguimos unanimidade na aprovação da Moção.

Em relação à questão do primeiro emprego, está sendo discutido na Câmara, um projeto de nossa autoria que visa acabar o círculo vicioso de "não tem experiência, não tem emprego; não tem emprego, não tem experiência". E há resistência do executivo de Salvador, alegando "vício de origem do projeto". Reconhecem que o projeto é bom, mas é do PT, e por isso não podem aprovar. E assim continuam, se ausentando dos debates (é lamentável a ausência da Prefeitura aqui entre nós) e se omitindo na implementação de políticas públicas para a juventude.

Concluindo, é com muita satisfação que a vejo esta reunião, resultado da pesquisa realizada. É com esperança que vejo a possibilidade de transformação. Desejo que essa experiência se enraíze, efetivamente. Vocês têm a oportunidade de fazer essa discussão. Quantos outros não têm acesso à escola, a saúde, a moradia? É desagregação familiar completa, marginalização. São postos à margem de tudo, cujos destinos parecem já ter sido traçados. Creio que é possível mudar isso. O trabalho da CESE, o trabalho das igrejas diversas que compõem a CESE, que estão nesse trabalho de formação da juventude, todos tem uma contribuição a dar. Com a atuação da gente junto à cultura, ao esporte, ao lazer, à afirmação de um novo entendimento de mundo, é possível transformar isso.

Quero concluir dizendo para essa elite que aí está: Para eles, o ato de oferecer ajuda é um ato de opressão, quando deveria ser um ato de solidariedade. Creio no resgate do sentido da solidariedade. O ato de dar as mãos é que nos fará potentes o suficiente para transformar essa realidade, para construir um mundo de justiça e de oportunidades. Creio que um outro mundo é possível.

* Vereador (Partido dos Trabalhadores), líder da oposição na Câmara dos Vereadores da cidade do Salvador – Bahia.