Hoje é semente de amanhã

Evangelina Beatriz da Cruz Santos*

Sejam todos bem-vindos a Salvador. De braços abertos a gente recebe vocês. E dando nosso recado, falando dos movimentos sociais trabalhando com a juventude, no nível paroquial, no nível comunitário e na nossa sociedade, é um recadinho que a gente vai dar dessa juventude, baseado na minha experiência pessoal, vivendo dentro da nossa sociedade.

Durante a minha educação formal, duas frases sempre me chamaram muito a atenção: "Vocês são o futuro" e "Vocês estão construindo a história". A primeira me impressionava, porque eu dizia: "Sim, eu sou o futuro" (e o futuro me parecia muito distante), "bom, quando chegar no futuro, eu vou estar adulta, velha já". E esta frase que era dita tão forte, de uma maneira tão enfática, me parecia vazia de sentido. E, com o passar do tempo, eu comecei a perceber que o futuro a que eles se referiam era uma expressão e consequência direta do que eu construísse hoje. E o meu futuro e o futuro do meu país dependeria do que eu fizesse naquele momento.

A segunda frase, ela me instigava, porque cada vez que cada professor de História estava falando em meio a fatos, pessoas e datas marcantes, eles diziam: "Vocês também estão construindo a história". E eu me perguntava "mas como eu estou construindo a história? Será que eu vou estar em algum livro, daqui a alguns anos?". E partilhando, sendo jovem, caminhando com a juventude, eu descobri que, efetivamente, nós construímos a história. Nós podemos pensar o novo. Nós podemos mudar o mundo. Nós podemos transformar a realidade. E as duas frases que marcaram a minha vida, aos doze, aos treze anos, hoje, são presença marcante na minha vida: que nós construímos a história, podemos transformar a nossa realidade e temos que fazer isso hoje.

Nós vivemos numa sociedade que precisa ser transformada, ela clama por transformação. A desigualdade social impera no nosso país. Ouvir e ler notícias sobre prostituição infantil, violência, trabalho escravo, sobre discriminação racial, são coisas comuns na nossa vida. A gente escuta e de tanto escutar, a gente ouve essas notícias como uma música que a gente já escutou e está acostumado a ouvir. A gente se acostuma, mas não devia, porque na verdade essas notícias são um grito de que essa sociedade precisa ser transformada. Só que essas notícias, por chegar aos nossos ouvidos, dessa forma tão repetida, tão batida, e que a gente já não se indigna mais, a nossa sociedade fica deitada em berço esplêndido, diante de tudo isso. Às vezes se indigna - é horrível, é corrupção demais, é loucura demais, está errado demais! – mas não age. Acha que não tem condição de construir algo. E dentro da nossa sociedade, a nossa juventude também está presente, a nossa juventude, de uma maneira geral, também está deitada em berço esplêndido. E não acredita na força da organização popular, não acredita nos movimentos sociais, não acredita que nós podemos construir uma civilização mais igualitária.

Mas essa descrença e essa desesperança se justificam porque nós não fomos educados e não somos motivados a acreditar que nós podemos construir o novo. Gente não se improvisa; a gente precisa ser educada para isso. E quem está preocupado, efetivamente, com a garantia do direito da juventude? Quem está disponibilizando seu tempo, seus recursos, planejamentos estratégicos para que a juventude possa assumir o seu protagonismo na sociedade? As famílias estão cada vez mais desestruturadas. Crianças estão gerando outras crianças. O Estado, que tem por obrigação, garantir plenamente o direito de cada cidadão, parece se esquecer disso. Nas escolas, as escolas formais, nas aulas de História, a gente vê os fatos e não é acostumado, não é educado a questionar, a pergunta porque. A gente olha os dados, os fatos marcantes, os personagens, e não sabe quais foram as causas que levaram e que provocaram toda a situação. A questão racial é ignorada e foi ela, dentro da sociedade brasileira, que pautou muita transformação, que provou muita coisa. Sem falar nisso, hoje, existe uma política de analfabetização do nosso povo. Mesmo que não se saiba, mesmo que termine o ano e não saiba ler, não saiba direito o que aquele ano tem como programa, passa-se para o ano seguinte. Passa-se para o ano seguinte, sem saber, efetivamente, o que deveria. Em função disso, no mercado de trabalho é necessário que as pessoas estejam preparadas, com conhecimento, com qualificação, com experiência. Como é que pode se exigir tudo isso, se não foi dado? Se em nenhum momento foi fornecido aos jovens toda essa necessidade? Todas essas condições? Para instituições de Saúde, se você chega lá e não está no leito de morte, tudo bem, pode esperar! Saúde não é só ausência de doença. É preservação da vida. Aí falamos em direitos e não falamos da moradia, da segurança, do lazer, que é muito esquecido.

Listar essas ausências faz surgir a contestação ao sistema neoliberal em que a gente vive. Um sistema que faz com que cada um, cada ser humano se reduza a números, a votos, a cifras. Como é e por que o Estado faz uma gestão financeira dos direitos, por que faz uma gestão financeira dos espaços? Onde se encontra a formulação de políticas públicas para a juventude? Ao Estado cabe a garantia dos direitos básicos do cidadão e se isso não é feito, se isso continuar sendo relegado, o aumento dos índices de violência, de desigualdade e de crise social não vai ser nenhuma fantasia e não vai poder ser maquiado por muito tempo. Os movimentos sociais parecem às vezes estar meio desnorteados diante da situação: por onde caminhar, como cativar, como conquistar, como buscar as pessoas? A religião atrai de forma intensa a juventude, não só a juventude, e, no nosso país, muitas pessoas estão presentes nas religiões. E as nossas igrejas? Que deus nós temos apresentado à juventude que vem nos procurar? Um deus distante, ou um Deus que se encarna na vida do povo e que clama por justiça social e por paz?

Enquanto eu estava preparando o que eu ia falar, minha mãe estava perguntando; sim, você está questionando muita coisa, está questionando todo mundo. Mas como é que pessoas e jovens - que, apesar de serem minoria, ainda são muitos, que lutam pela vida e que se doam pela igualdade – como é que vocês foram despertados para isso? E nós fomos despertados e despertadas por espaços como a família, como os movimentos sociais, como as igrejas, fomos despertados pela realidade que nós vivemos e pelo desejo de uma sociedade melhor, uma sociedade mais justa, e pelo desejo de ver um Estado que cumpra os seus deveres e que pense na questão e na causa social do nosso país. Fomos despertadas e despertados, porque acreditamos que o hoje é semente do amanhã, e que não devemos e não podemos desistir. E esse alerta é para todo mundo, os que trabalham em prol da juventude e aqueles que parecem esquecer dela. Porque gente não se improvisa, consciência não se forja e cidadania não é um presente.

 

* Estudante em Relações Públicas, Pastoral da Juventude da Arquidiocese de São Salvador da Bahia (ICAR), Movimento Juventude Socialista Sal da Terra.