Oficina de Espiritualidade Ecumênica - Apresentada no III Sulão em Curitiba de 22 a 24 de julho 2005

 
 

 A Espiritualidade ecumênica se caracteriza pelo desejo de comunhão das diversas experiências da fé cristã, que acontecem no interior das igrejas que estão integradas ao movimento ecumênico.

Suas características são: o encontro; a escuta; a valorização recíproca das experiências de oração e de vida interior de cada tradição eclesial, buscando as possibilidades reais de unidade, através da Mística do diálogo. Esta tem seu lugar privilegiado na ORAÇÃO que emerge dos encontros ecumênicos promovidos: pelas Igrejas;  pelos Organismos Ecumênicos;  ou pelos cristãos (os vários grupos que existem,...), que alimentam o espírito de convivência e diálogo. Mas é, sobretudo no interior do coração e da consciência de cada fiel que se forma a espiritualidade ecumênica. Ali o Espírito suscita o diálogo com Deus e com os outros.  Então, a Espiritualidade Ecumênica tem seu lugar na disponibilidade do cristão em deixar-se guiar pelo Espírito que forma o seu modo:de ser; de compreender; de conviver com o outro, construindo uma atitude de vida baseada na capacidade: de diálogo;  de convivência; de comunhão

Que elementos formam a BASE da Espiritualidade ecumênica?

 

A fé em Jesus Cristo

A solidariedade – contexto social das comunidades

O crescimento do Movimento Ecumênico no Brasil

 

A fé em Jesus Cristo: que para todos os cristãos é razão e centro da própria existência. Assim as igrejas cristãs podem se abrir para o mútuo reconhecimento de suas tradições e entendem que as diferenças na forma de expressar a fé cristã, nem sempre significam divergências quanto ao conteúdo. Podemos então valorizar ao máximo tudo o que é comum entre as Igrejas.

Pelo amor recíproco vivido, passamos a conhecer as nossas diversas tradições e apreciamos os dons uns dos outros e o que temos em comum. Desse modo, é incrementado o diálogo da caridade, pois nos conhecemos melhor (Chiara Lubich)

 

A solidariedade: O contexto social, sobretudo na América Latina, torna-se o “chão” ecumênico. Diversas são as iniciativas neste campo pois as situações de miséria, exclusão, violência,..., são comuns a todos os cristãos das diversas igrejas. Nestes casos, a ORAÇÃO que sobe aos céus leva o grito de dor e sofrimento causados pela injustiça social.

 

Crescimento do Movimento Ecumênico no Brasil: Se verifica,  sobretudo através de três fatores:

Incremento dos Organismos Ecumênicos, a nível Nacional, Regional e Local. Por Exemplo: CESE, CONIC e inúmeros outros grupos Ecumênicos que surgem. Na Igreja Católica, as comissões Regionais e Diocesanas para o Ecumenismo.

Fortalecimento das iniciativas em âmbito Nacional:        - Semana de Oração pela Unidade  e Campanha da Fraternidade.

Surgimento de ambientes que vão se tornando referência na experiência de uma Espiritualidade Ecumênica: Casa da Reconciliação (SP); Mosteiro da Anunciação (GO); Movimento dos Focolares (em todas as regiões do Brasil); Comunidade de Taizé (BA)

Estes três elementos são fundamentais para se entender o crescimento das iniciativas que promovem a oração entre cristãos, realizada em diferentes lugares mas motivada pelo mesmo Espírito que promove a Unidade.

Podemos dizer que a oração que surge das práticas ecumênicas vai formando nos cristãos: um modo de ser; atitude e comportamento ecumênico, que estão na base da Espiritualidade Ecumênica.

 

Qual a Natureza da Espiritualidade Ecumênica?

 

As iniciativas ecumênicas que se concentram na espiritualidade visam criar comunhão e tem na ORAÇÃO a sua fonte e alimento. São as iniciativas mais promissoras, possibilitam uma real comunhão de sentimentos. Criam um “lugar interior” comum, onde cada fiel encontra-se com o outro e com Deus. Então, é a Espiritualidade Ecumênica que permite compreender que as divisões atingem mais os aspectos acidentais  de organização e estruturas doutrinárias, mas na essência a Igreja continua UNA.

 

Características principais da espiritualidade ecumênica

 

Trinitária: a fonte da Espiritualidade é a Trindade, cujo amor do Pai permite ao Filho que nos dê o seu Espírito de unidade.

Ato de fé: A Espiritualidade Ecumênica é uma atitude de confiança: o fiel crê que Deus possibilitará a Unidade.

Ato de profecia: A Espiritualidade Ecumênica possibilita discernir os sinais que conduzem à Comunhão  ou a impedem.

Ato de conversão: não há unidade sem: conversão interior; arrependimento; mudança de comportamento

Ato de sacrifício: O desejo de unidade exige também: dedicação; compromisso; sacrifício

 

Dinâmica do “Dado do Amor”

 

É um jogo de relacionamentos e dinâmica de vida. O “Dado do Amor” nos leva a descobrir a arte de amar. Portanto, a “Arte de Amar” é uma intuição de Chiara Lubich, fundadora e presidente do Movimento dos Focolares. A arte de amar brota do Evangelho. É necessário que o nosso amor seja uma “arte” e nos leve a dilatar o coração à medida do coração de Jesus, amando todos e cada um para além dos nossos vínculos familiares, de amizade,...

Jogando o dado, se descobrirá as várias maneiras de se relacionar com as pessoas; e nos ajudará enormemente em nossos relacionamentos “ecumênicos”! Tente você também. Se não tiver o dado, pode fazê-lo virtualmente www.cidadenova.org.br/newsite/index.asp É um jogo simples, mas que se atuado cada ponto, transforma nossas vidas e nossos ambientes!

 

AMAR A TODOS

O amor que Jesus quer:  ama a todos sem excluir ninguém

Exige que amemos a todos: o simpático e o antipático, o bonito e o feio, o rico e o pobre, o adulto e a criança, o jovem e o idoso...

Amar a todos como o Pai do Céu que não faz distinção de pessoas, mas “faz nascer o sol sobre os justos e injustos” (Mt 5,45)

 

AMAR POR PRIMEIRO

O amor que Jesus quer:  Ama por primeiro: não espera ser amado

Como Jesus fez, o qual, quando ainda éramos pecadores, tomou a iniciativa de vir até nós e como prova de amor, deu-nos sua vida (cf. Rm. 5,8)

Assim, também devemos fazer: não esperar sermos amados pelo outro, mas darmos nós o primeiro passo. E por isso, usar a criatividade, “inventando” sempre pequenos e novos gestos de amor ao próximo.

 

AMAR COMO A SI MESMO

O amor que Jesus quer: Ama o próximo como a ti mesmo (Mt 23,29)

Cada próximo que encontramos durante o dia, devemos tratá-lo como gostaríamos de ser tratados por ele. Saúdo o próximo porque gostaria de ser saudado por ele; dou um presente...; perdôo...

O Amor de Deus que Jesus com o seu Espírito derramou em nossos corações nos impulsiona a amar desinteressadamente, não esperando nada em troca.

 

AMAR JESUS NO IRMÃO

O amor que Jesus quer: Vê e ama Jesus em cada pessoa

O que fazemos aos outros de bem ou de mal, Jesus considera como feito a si: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40)

Podemos amar Jesus no próximo, desde um “Bom Dia” ao vendedor de jornal, de carne , de pão, aos colegas de trabalho, ao professor,...

 

FAZER-SE UM

O amor que Jesus quer: É um amor que se faz um com o próximo

Preenchamos o dia com serviços concretos, humildes e inteligentes. O amor não consiste em palavras e sentimentos, exige que “vivamos o outro”: se ele chora, choramos com ele; se ele ri, alegramo-nos com ele. Como o apóstolo Pulo: “Com os fracos me fiz fraco, para ganhar os fracos. Para todos, eu me fiz tudo...” (1 Cor 9,22)

 

AMAR O INIMIGO

O amor que Jesus quer: Ama até mesmo o inimigo

Jesus disse: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e rezai por aqueles que vos caluniam” (Lc 6,27-28).

Jesus quer que vençamos o mal com o bem. Agindo deste modo podemos superar as divisões, derrubar as barreiras e construir a comunidade.

 

AMOR RECÍPROCO

O amor que Jesus quer: Conduz-nos à reciprocidade

Amar até que o amor se torne mútuo. Se a arte de amar for vivida por várias pessoas, na família, no trabalho..., então se chegará ao amor recíproco, que é a pérola do Evangelho: o “mandamento novo” de Jesus realiza a unidade.

O amor recíproco é o que caracteriza o cristão: “O que vos mando é que vos ameis uns aos outros” (Jo 15,17).

 

E seguem trechos de Chiara Lubich:

Este modo de viver nos ajuda a realizar o «diálogo da vida», como podemos chamar, ou «povo em diálogo», pois sentimos que compomos um único povo cristão, que abrange leigos, mas também monges, religiosos, diáconos, sacerdotes, pastores, bispos, pois o povo de Deus é feito por todos. «Povo em diálogo», que não é um diálogo da base que se contrapõe ou justapõe ao diálogo dos vértices ou dos responsáveis de Igrejas. É um diálogo do qual todos os cristãos podem participar. Este povo é um fermento no movimento ecumênico, que reaviva em todos a noção de que, sendo cristãos e batizados, na possibilidade de amar-nos, todos podem contribuir para a realização do Testamento de Jesus.

 

E como atuar o diálogo entre as religiões?

O diálogo deve ser animado por aquele amor que chega a “entrar na pele do outro”, porque sabe se fazer um “nada de amor” diante do outro, sabe se fazer espaço de acolhida e de escuta, que prepara “o anúncio respeitoso do Evangelho”.

Dialogar significa, antes de tudo, colocar-se no mesmo plano: não pensar que somos melhores que os outros. Podemos dialogar com qualquer um, também com o menor de todos, com o mais miserável...  “esvaziar a nossa mente de idéias, liberar o nosso coração de afetos,... para podermos nos identificar com o outro e entendermos quem está diante de nós. João Paulo II na Índia disse: “Quando nos abrimos ao outro, nos abrimos também a Deus e fazemos com que Deus esteja presente ente nós”.

 

Sem perder a própria identidade:

Em todas as religiões está enraizada a idéia da unidade e do amor. Praticamente isto significa que somos parceiros no caminho da fraternidade e da paz. Sem perdermos a nossa identidade, entre as grandes tradições religiosas da humanidade, podemos nos encontrar e compreendermos-nos mutuamente. Também temos em comum com várias religiões, a chamada “Regra de Ouro”, que de modos diferentes afirma: “O que quereis que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles” (Lc 6,31)

 

Alguns trechos da UT UNUN SINT sobre a ORAÇÃO:

 

Primado da oração

21. « Esta conversão do coração e esta santidade de vida, juntamente com as orações particulares e públicas pela unidade dos cristãos, devem ser tidas como a alma de todo o movimento ecumênico, e com razão podem ser chamadas ecumenismo espiritual ».

Avança-se pelo caminho que conduz à conversão dos corações ao ritmo do amor que se dedica a Deus e, ao mesmo tempo, aos irmãos: a todos os irmãos, inclusive àqueles que não estão em plena comunhão conosco. Do amor nasce o desejo de unidade, mesmo naqueles que sempre ignoraram tal exigência. O amor é artífice de comunhão entre as pessoas e entre as Comunidades. Se nos amamos, tendemos a aprofundar a nossa comunhão, a orientá-la para a perfeição. O amor é dedicado a Deus como fonte perfeita de comunhão — a unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo —, para dela haurir a força de suscitar a comunhão entre as pessoas e as Comunidades, ou de a restabelecer entre os cristãos ainda divididos. O amor é a corrente mais profunda que dá vida e infunde vigor ao processo que leva à unidade.

Este amor encontra a sua expressão mais acabada na oração em comum. Quando os irmãos que não estão em perfeita comunhão entre si, se reúnem em comum para rezar, esta sua oração é definida pelo Concílio Vaticano II como alma de todo o movimento ecumênico....  Mesmo quando não se reza formalmente pela unidade dos cristãos, mas por outros motivos como, por exemplo, pela paz, a oração torna-se, por si própria, expressão e confirmação da unidade. A oração comum dos cristãos convida o próprio Cristo a visitar a comunidade dos que Lhe rezam: « Pois onde estiverem reunidos, em meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles » (Mt 18, 20).

 

22. Quando os cristãos rezam juntos, a meta da unidade fica mais próxima...Na comunhão de oração, Cristo está realmente presente; reza « em nós », « conosco » e « por nós ». É Ele que guia a nossa oração no Espírito Consolador, que prometeu e deu à sua Igreja no Cenáculo de Jerusalém, quando a constituiu na sua unidade original. No caminho ecumênico para a unidade, a primazia pertence, sem dúvida, à oração comum, à união orante daqueles que se congregam à volta do próprio Cristo. Se os cristãos, apesar das suas divisões, souberem unir-se cada vez mais em oração comum ao redor de Cristo, crescerá a sua consciência de como é reduzido o que os divide em comparação com aquilo que os une. Se se encontrarem sempre mais assiduamente diante de Cristo na oração, os cristãos poderão ganhar coragem para enfrentar toda a dolorosa realidade humana das divisões, e reencontrar-se-ão juntos naquela comunidade da Igreja, que Cristo forma incessantemente no Espírito Santo, apesar de todas as debilidades e limitações humanas.

 

23. Enfim, a comunhão na oração induz a ver com olhos novos a Igreja e o cristianismo. Com efeito, não se deve esquecer que o Senhor implorou do Pai a unidade dos seus discípulos, para que servisse de testemunho à sua missão e o mundo pudesse acreditar que o Pai O tinha enviado (cf. Jo 17, 21)....

E todavia, não obstante as nossas divisões, estamos percorrendo o caminho para a plena unidade — aquela unidade que caracterizava a Igreja Apostólica nos seus inícios e que nós procuramos sinceramente: prova-o a nossa oração comum, guiada pela fé. Nela, reunimo-nos no nome de Cristo que é Um. Ele é a nossa unidade. A oração « ecumênica » está ao serviço da missão cristã e da sua credibilidade. Por isso, deve estar especialmente presente na vida da Igreja e em cada atividade que tenha a finalidade de favorecer a unidade dos cristãos....

 

24. É motivo de alegria constatar como os vários encontros ecumênicos incluem, quase sempre, a oração, antes, culminam nela. A Semana de Oração pela unidade dos cristãos, que se celebra no mês de Janeiro ou, em alguns países, por volta do Pentecostes, tornou-se uma tradição difusa e consolidada. Mas, mesmo fora dela, muitas são as ocasiões, ao longo do ano, que induzem os cristãos a rezarem juntos...

 

26. A oração, a comunhão de oração permite-nos voltar à verdade evangélica das palavras: « Um só é o vosso Pai » (Mt 23, 9) — aquele Pai, Abbà, que o próprio Cristo invoca, Ele que é seu Filho unigênito e consubstancial. E o mesmo se diga quanto à afirmação: « Um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos » (Mt 23, 8). A oração « ecumênica » descobre esta dimensão fundamental da fraternidade em Cristo, que morreu para reunir na unidade todos os filhos de Deus que estavam dispersos, morreu para que, tornando-nos « filhos no Filho » (cf. Ef 1, 5), refletíssemos mais plenamente a insondável realidade da paternidade de Deus e, ao mesmo tempo, a verdade sobre a humanidade própria de cada um e de todos.

.... « Quando o Senhor Jesus pede ao Pai « que todos sejam um (...), como nós somos um » (Jo 17, 21-22), sugere — abrindo perspectivas inacessíveis à razão humana — que há uma certa analogia entre a união das pessoas divinas entre Si e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade ».

A própria conversão interior do coração, condição essencial de toda a autêntica procura da unidade, deriva da oração e por ela é orientada para a sua perfeição: « Os anseios de unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente, da abnegação de si mesmo e da libérrima efusão da caridade. Por isso, devemos implorar do Espírito divino a graça da sincera abnegação, humildade e mansidão em servir, e da fraterna generosidade para com os outros ».

 

Conclusão

 

No trabalho ecumênico a oração tem um lugar de relevo, pois a unidade é, em primeiro lugar, um dom do alto. É evidente que poderíamos obter mais facilmente a graça da unidade, pedindo-a juntos ao invés que sozinhos. Jesus disse: «Em verdade eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo nesta terra ("consenserint") sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso será concedido por meu Pai que está no Céu» (Mt 18,19). Não se trata de estar simplesmente lado a lado, como na igreja, mas de rezar realmente unidos espiritualmente com Jesus em meio à comunidade.

Temos a certeza de que a oração de um povo cristão, unido no nome de Jesus, fará surtir o máximo efeito para alcançar a plena comunhão entre as Igrejas.

Também o diálogo teológico terá grandes vantagens do "diálogo da vida". Se os teólogos se amarem reciprocamente e estabelecerem a presença de Jesus entre eles, Jesus, que é a única verdade para a qual todos tendem, iluminará as suas mentes e indicará o caminho a seguir para alcançar a plena unidade de pensamento.

Por fim, a realidade de como o povo pode fazer seu os progressos dos diálogos teológicos oficiais, este pode ser superado só por um povo ecumenicamente preparado. A história nos ensina que, uma declaração formal de unidade, feita até mesmo por responsáveis das Igrejas, não basta para selar a plena comunhão entre as Igrejas; é preciso que o povo seja informado e viva conforme ao que se compreendeu e declarou.

Só nos resta formular no coração um propósito sincero: vivenciar o amor, amando a todos, todos, sendo os primeiros a amar, amando concretamente Jesus em cada um e, sobretudo, amando-nos reciprocamente, a fim de que ele esteja presente entre nós, criando um vínculo tão forte entre todos nós a ponto de nos levar a dizer: «Quem nos separará do amor de Cristo?» (Rm 8,35).

 

(Fontes do material preparado:

A Espiritualidade Ecumênica no Brasli-  Pe. Elias Wolff

documento: UT UNUN SINT

 textos do Movimento dos Focolares e citações de Chiara Lubich)

 

 
   Apresentado por Maria Bernadete Rocha